2011-10-05

Help

Quando Allison Janney, doente terminal, senta Emma Stone (sua filha no filme) no sofá lá de casa
e lhe diz que tinha decidido não morrer
e lhe diz que está tão orgulhosa dela
e lhe diz
- Parece que a coragem salta uma geração.,
senti-me pequenino outra vez.

É um notável filme que acaba de estrear: As Serviçais (The Help).
Ter pena de nós próprios é hediondo. Não é isso.
É isto:
o cinema faz a maldade de nos apanhar sozinhos no escuro e de nos sovar. O corpo fica dorido, o peito comprime, é um sufoco. A cena agarrou-me pelos colarinhos. Mimetizou-me a vida ao ponto de isolar pedaços dela: Emma Stone (Skeeter no filme) fora uma aspirante a escritora toda a sua vida, mas nunca abdicara dos seus princípios, da essência do que era, nunca se vergara ao entorno. Quando tudo concorre para um cerco social, as pessoas importantes na sua vida, que aparentemente haviam contribuído para o seu ostracismo, dizem presente. Nem sempre é assim.
De facto, parece egoísta que ao ver aquele que acredito ser o filme que vai brilhar nos óscares deste ano (já tinha saudades de surpreender a majestade no cinema) toda a minha vida de escrita me tivesse passado à frente dos olhos. Ainda hoje respondia a um amigo que me perguntava na cara se eu estava feliz, que sim, mas não pela escrita, pela edição ou pela publicidade. Estava apenas feliz pela vida simples que continuava a ter. Por algum reconhecimento justo e desinteressado. Mas na escrita continuava naturalmente sozinho, porque é assim mesmo. Não sei se tem de ser, mas é. Talvez se o hábito da bondade, da alegria pelo sucesso do outro, se instalasse entre os pares a solidão fosse menor. Mas como estamos longe disso, e há demasiados sabichões que ditam sentenças, sempre preocupados com quem é melhor do que quem ou do que todos, e a vida solitária desfila como as imagens coladas da menina na caverna do Túmulo dos Pirilampos, chorar é sempre inevitável, porque visitamos o passado, os longos dias de dúvida, espera e sofrimento, em segundos.

Mas é um disparate que o façamos hoje perante este filme.
Um festival de actuação feminina como há muito não se via no cinema.
Nomeio para o óscar de actriz principal Viola Davis, talvez Octavia Spencer (e gostei da Emma Stone, mas faltam-lhe condições externas: o dramatismo da figura, ser negra e não ser ruiva).
Para actrizes secundárias, a filha de Ron Howard, Brice Dallas Howard, aboslutamente perfeita, deve limpar o óscar, mas merecem uma nomeação a Jessica Chastain e a Allison Janney - eu votava na Sissy Spacek, mas talvez não faça sentido uma consagração este ano.

E o olhar ao drama dos negros na América branca repressiva dos anos cinquenta/ sessenta, perante o terror de leis xenófobas e do KKK, algo tão perto, mas tão perto de nós, faz lembrar que inquietar é obrigatório, mergulhar nas histórias individuais das serviçais uma abordagem brilhante, fazê-lo com actrizes destas um privilégio. Além das abordagens ao Holocausto, que vão aparecendo e nunca são em demasia, são histórias aparentemente simples, que nunca nos interessariam em teoria, como a contada neste filme e que devia ter dado mais um óscar a Charlize Theron, que nos acordam da modorra e nos empurram para uma atitude de coragem perante a devassa do outro.

Como Skeeper e a coragem que saltou uma geração.

Nota final: nenhuma editor quis publicar o romance de Kathryn Stockett que deu origem ao argumento deste filme. Foi o realizador, amigo da escritora, que avançou para o filme e foi o filme que fez do livro um bestseller. E eu continuo a espantar-me com as certezas de editores, livreiros e agentes quanto ao que vende ou não, quanto ao que o público deseja ou não.

PG-M 2011



3 comentários:

ana b. disse...

Também já fui ver e adorei.
Mas se me tivesse deixado levar pelas estrelas dos críticos, teria perdido esta pequena pérola. Por isso, também aqui, não ligo a estrelas terrestres. Estrelas, só as do espaço.:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

precisamente, Ana. Eu vejo cinema de forma intensa (uma, duas, às vezes três filmes por semana - no cinema!) há 25 anos e escrevo sobre o dito há 20. Costumo dizer que estão a fazer de mim parvo - a crítica cinematográfica está mais descredibilizada do que a crítica de todas as outras artes. Pensa-se que não há necessidade de haver um livro de estilo ou parâmetros éticos aceites de forma alargada. Não se trabalha sobre o assunto. É mais fácil assim.

ana b. disse...

Também adoro cinema. Aliás basta ver a foto que escolhi para meter no perfil. Acho que é bem reveladora...:)
Vou habitualmente duas vezes por semana mas em períodos com maior oferta ( a época dos Oscars é um exemplo), chego ir três vezes. E também só vejo cinema no cinema!
Em casa, só aqueles filmes que não tiveram estreia comercial ( infelizmente há por aí algumas pérolas que tiveram o triste fim de ir diretamente para o mercado video) ou nas raras situações em que, por alguma razão, acabei por o perder.
Infelizmente não é só a crítica cinematográfica que está descredibilizada. O próprio mercado de distribuição e exibição de filmes está a precisar de levar uma boa volta. É vergonhoso a quantidade de filmes menores que têm estreia comercial e outros filmes, verdadeiramente interessantes, ficam na prateleira. É pena.