2011-10-30

Enfermaria 2, um ano depois

Passou um ano na segunda-feira passada. A experiência da republicação do texto no facebook disse-nos a todos (e falo de "nós", os leitores, e eu fui um leitor dorido nessa experiência de regresso a um texto que nunca mais relera, e que foi um recipiente para as lágrimas de muitos no velório, porque esteve ao lado dele e foi lido pelos que o visitavam) que ajuda mais do que magoa todos os que passaram e passam por experiências idênticas. Assim sendo, republicam-se aqui os três textos que foram dedicados ao Ilídio, lembrando que a ele foi também dedicado o lançamento do meu livro "A manhã do mundo" no Porto, no passado dia 10 de Julho.

No dia 19-10-21010:
 "Oncologia" está escrito a preto sobre uma placa branca que encima a porta no início do corredor.
Percorro-o atrás da Laura e da Catarina.
Há um tom esverdeado no ar - dizem que é da esperança toda que vem dos olhos dos doentes e sobe as paredes - e eu vou com  medo do sofrimento. Dura pouco. Fico em paz mal o vejo.
Na cama 7 da Enfermaria 2 de Medicina 1 do Pavilhão Satélite do hospital está o meu amigo Ilídio.
A Enfermaria 2 é clara por causa das janelas rasgadas de parede a parede e da luz que ninguém tolda.
Explicam-lhe que sou eu que estou ali, ele chama-me Afonso, e eu, que não me chamo Afonso, sorrio e digo Ele sempre me chamou Afonso antes de qualquer outra coisa. Eu sabia que ia ser assim. Os dois calados. Não era preciso mais nada. Acaricio-lhe a mão forte que aperta uma cruz. Passo-lhe a minha na testa dele e tento que sossegue e adormeça por uns minutos. O Ilídio é demasiado puro para deixar que as drogas lhe turvem o espírito. Está ali comigo e nunca me deixará ir embora sem uma despedida. A Laura, a mulher, é um espanto. Empolga-se com cada pequena conquista, fala com ele, dá-lhe água por uma palha sobre a máscara de oxigénio. Embora já pouco fale e o que diga seja pouco perceptível, levanta o grosso polegar para aprovar , fecha os olhos e cinge os lábios para reprovar. Laura conta-me que ele não quer que ninguém se vá embora sem se despedir. Ou fecha os olhos e cinge os lábios.
- Antes de me ir embora, à noite, acordo-o e despeço-me. Depois adormeço-o outra vez.
Na enfermaria 2 todas as pessoas parecem ser melhores do que nós. A força e a luta dos vizinhos e dos seus familiares inspira os visitantes, que chegam com o mesmo medo que eu trazia no corredor verde, olham em volta e devolvem-nos um olhar quente que nos aconchega como uma manta escocesa. Todos separam a bondade do resto. Todos sorriem, e um sorriso aqui vale mais do que um colar de diamantes. E os companheiros de cama dizem piadas uns aos outros. Estendem a mão - ou os braços, quando não se podem levantar. Há minutos de felicidade autêntica que a vida sem resguardo não tem.
Debaixo da morfina vê-se tudo. O Ilídio já tem várias camadas de sofrimento a pousar-lhe sobre a pele, mas mesmo assim vê-se-lhe para dentro à transparência. Tem um sorriso que me conforta e eu espero ter algo que o conforte a ele. Ele arranca a camisa bordada com o símbolo do hospital. Foi-lhe vestida para as costas e a dignidade nunca foi um detalhe. As enfermeiras não o questionam. São todas bonitas, diz a Laura, como se fosse um requisito para entrar no curso de Enfermagem. Não ser bonita: ser luminosa. Retiram-se fios e tubos que encaixam em catéters e veste-se a camisa do direito. Ilídio sossega. Há muito tempo que os meus heróis são pessoas simples. O Ilídio e a Laura são os meus heróis. A Catarina chega em vez da mãe, que foi descansar para o jardim, sentada num torrão de erva a olhar o Outono. Catarina não quer ver o pai dormir. Deixou a escola para o acompanhar da uma da tarde às nove da noite. Todos os dias. Namora com o Emanuel, que o Ilídio também já consegue amar. Os dois jogavam Playstation 2 noite dentro e Catarina encostava-se à mãe, num sofá ao largo, feliz, a olhar para eles. Foi em Agosto que Ilídio, durante uma caminhada, teve de se sentar com uma dor na perna. Depois surgiu uma dor mais forte nas costas. Passaram o Verão no hospital e o diagnóstico não demorou muito. Parece que começara calado no estômago e abrira os braços nojentos para todo o corpo. Ilídio esteve por cá, foi a casa dois dias e agora voltou. Há quatro ainda atendia o telemóvel aos amigos, ainda falava entre gemidos. Agora o telemóvel está pousado sem som. Catarina pergunta ao pai se tem dores, ele abana a cabeça. Não tem. Nós sabemos que tem. Ilídio ama a filha com todas as suas forças. A morfina sobe. Uma amiga dissera-lhe para se agarrar aos momentos bons da vida, e ele respondera-lhe que não houveram sido assim tantos. Os olhos brilhantes de Laura explicam o contrário. Catarina também. Ser feliz nunca foi ser um navegador desassombrado a descobrir novos mundos. Estive quase três horas ao lado deste rapaz que adoro. Nunca enfiou boné de capitão ou rodou o leme. Não me apercebi do tempo, tal como ele, que vê os dias sucederem-se sem dó. Quando me estou a despedir, agarra-me com vigor e segreda-me: "vive a vida como se fosse a última vez". Não choro. Durante todo o tempo não choro, excepto em alguns minutos em que fico a sós com ele a vê-lo dormir e a fazer-lhe festas na careca. E choro brevemente a ideia de que a vida é injusta, só isso. Não choro pelo Ilídio. Estou a olhar para ele e fico feliz pelo privilégio de estar tão perto de uma pessoa tão extraordinária. Fico impressionado com a Laura e a Catarina e aprendo humildemente a sua entrega. Dizemo-nos mutuamente obrigado. Os AC/DC começam a tocar "Fly on the wall" e o Ilídio sorri. Põe a mão sobre os lençóis e levanta o polegar. Tudo ok. Falamos das nossas futeboladas sem dizer nada. Enquanto ele dorme, aperta-me a mão de novo. Grande golo. Já estou longe e o jogo continua.


PS: cinco dias depois da escrita deste texto, o Ilídio deixou de sofrer. O jogo, esse, continua para todos nós, e uma parte dele será jogada em nome dele.


No dia da morte, 24-10-2010:
Os sinos choram sem lágrimas

Quase todas as minhas personagens choram sem lágrimas. Os sinos das igrejas choram sem lágrimas. Os da capela da senhora do amparo têm hoje um gemido comprido. As lágrimas têm-nas as pessoas e as casas e trocam-nas por abraços. Não são  personagens. Não são  livros. O Ilídio ligou à Laura às quatro da manhã, disse que se sentia bem e desligou. Depois fechou os olhos e morreu.








No dia do funeral, 25-10-2010:
Adeus então, meu rapaz


A fábrica parou ao meio-dia. Ninguém trabalha de tarde. É muito bonito olhar para a empilhadora que o Ilídio operava. Parada. Ver as grades postas nas portas, como ele as punha. Sentir o silêncio e como este lugar se recolhe em dor. Não se esquece. As tábuas estão todas quietas. Adeus então, meu rapaz.

3 comentários:

ana b. disse...

Comovente!
Custa muito perder as nossas referências afetivas. Em especial, quando ainda não é suposto. Fica uma sempre uma sensação de injustiça e um enorme vazio no coração.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

É verdade, Ana. Obrigado.

Cristina Torrão disse...

Lembro-me bem de ter passado por aqui, nessa altura.
Ajuda sempre falar dos nossos sentimentos, das nossas tristezas e das nossas angústias. Ajuda muito mais do que dizer/ouvir algo do estilo: "deixa lá, esquece, isso passa, a vida continua". Por muito bem intencionadas que sejam estas palavras.
Mas todos sabemos que, de boas intenções...