2011-10-10

Atropelamento na ilha deserta (o sexto)


Lancei-me à terra em Setembro, cresci, mirrei, fiz-me ilha com livros em vez de água, podei-me, levo o quinto meio escrito e, para quem nunca vai ler tudo o que quer, as leituras em dia, ouço livros, como bocados de livros, mas em Outubro a pulsão Nobokoviana veio a nado para cá, tomou-me nos braços, deitou-me por terra e deu-me o sexto para escrever. Expliquei-lhe que o quinto é de tal modo tecido que não o posso abandonar um dia que seja, e que o sabia de forma simples: afastei-me dele uma semana e ele fugiu-me. O Vladimir diz que este chegou precisamente por isso. Tens, disse, uma teia disforme para ordenar, falta-te a luz e a pequenez das coisas simples. O sexto alumia. Mas, se não me posso afastar de nenhum, vou ter de escrever os dois ao mesmo tempo, usar metade da velocidade em cada, estar mais ausente no mundo, o meu corpo figurado. E ler mais, sair de mim, venerar outros escritores para não sufocar na minha saliva. Sobre a mesa espalhei os pedaços que parecem manias, intelectualidades bestas, mas para mim são apenas alegrias simples: os dois El País atrasados (o deste Sábado devorei na hora), a Dulce, o padre António Vieira, o O'Neill, o eme Tavares, outros virão, estão sempre a chegar. Mesmo assim, mesmo que me invada um hábito interno fransciscano, uma nudez, ao chegar o sexto torno-me insuportável e megalómano por cinco minutos. Ido o Vladimir, são as duas magnólias à saída da rampa do pátio onde estaciono a carrinha que me dão humanindade: agora que todas se despem, elas trazem-me na expectativa do Inverno, quando me darão flores. Seja então: o quinto e o sexto a par. Haja alegria:).
PG-M 2011
PG-M 2011

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