2011-10-26

- Ah quem de mágoa vem quem de mágoa vai?


- Ah quem de mágoa vem quem de mágoa vai?
Andava o magoadeiro assim posto na treva da noite e o temporal na vila e ele por entre as ondas, as ondas do povo quando diz
- Isto está mesmo mau.
e olha assustado, o povo, o verso das persianas e o vento bater, já vai, já vai, que não me venhas buscar esta noite, e se encolhe na cama e cinge os cobertores e sorri, "que bom estar aqui no quentinho", o povo.
- Ah quem de mágoa vem quem de mágoa vai?
Um homem normal não veria nada, qual quê, o que se pode ver para lá da névoa, da chuva, do vento, do egoísmo e do conforto?, mas este até vê os que não precisam, aqueles cujo o desespero é apenas a tentativa de explicar o belo absoluto e deixa-os, deixa-os a chorar de peito grande, a beleza virá sob a forma de um abraço ou de uma música, os olhos fechados o silêncio o cheiro as costelas mais estreitas, ah, desses não curo, pensa ele, não curo dos que choram por causa do tamanho da vida.
- Ah quem de mágoa vem quem de mágoa vai?
O magoadeiro sabe calcular o sofrimento pela vibração das paredes, pela inclinação dos muros, pelas cortinas impolutas se as portadas não cerraram. Porque é em silêncio que lhe respondem
- Mágoa vai.
E a janela abre-se e o magoadeiro estende o braço cá de fora, ao encontro de outro braço lá de dentro.
- Mágoa vem.
As mãos apertam-se e ficam, forte, forte, cada vez mais forte, como os homens faziam antigamente para confortar os outros homens. Agora não se toca nas pessoas, nasceu o magoadeiro.
E a mágoa vem, recolhe-a o magoadeiro na dobra do braço e quando o retira segue estrada abaixo noite acima e o seu grito é como a flauta dos amoladores, oitava acima, estrada, oitava abaixo, noite.
- Ah quem de mágoa vem quem de mágoa vai?
Os violinos já gemeram tudo no concerto do teatro minerva, a multidão sai em gabardina e sobretudo, lágrimas  pelo cisne simbólico que morreu, e sobretudo, sobretudo o magoadeiro anda pelo lado escuro da vila porque estes não precisam e morrerão como todos, sorrindo, não com a asa quebrada sobre o bico, não negros nem brancos, quem não tem o direito a sorrir na morte?
- Ah quem de mágoa vem quem de mágoa vai?

PG-M 2011

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