2011-09-22

O sistema circulatório das palavras

Não encarei as minhas recentes idas às televisões como actos de normalidade. Quase assisti de fora, como qualquer curioso. E nunca gostei. Como poderia, se me vejo toldado? Como poderia, se recebi um décimo do que eu próprio sou ao espelho, que ainda assim será o dobro do que os outros têm de mim para si e metade do que o Valter Hugo Mãe diz que somos quando amamos ou somos amados?

Quando escrevo, as palavras saem-me do peito, aquecem viajando pelo sangue e chegam em ebulição à ponta dos dedos. Normalmente desdobro-as como lençóis distendendo as falanges, e só depois as verto para o pedaço em branco, que já nem papel é. É um processo eminentemente físico. Já não é o indicador e o polegar a sustentar a pena, com o lápis ou a caneta *, são os dedos todos, como se abordasse um piano e nele tocasse uma sinfonia surda. Escrever é cada vez mais parecido com música. A relação que tenho com os diversos teclados tem de envolver a carícia, a percepção do material de que são feitas, do bisel ou, agora, da consistência dos ecrãs. Só quando o espaço em branco já o não é entra o cérebro.

Em conversa com outra pessoa o processo é idêntico, mas há um breve estágio no cérebro, o regresso às mãos, que se movem e tocam o outro e a expressão das palavras pelos lábios e pelos olhos. E as não ditas, que ficam na inclinação do corpo, do rosto, nos sorrisos e nos silêncios. Às vezes em beijos ou em apertos de mãos. Em abraços. Em pancadas nas costas. Em corpos que se cingem, mesmo que parcialmente.

Quando falei nas televisões, as minhas mãos estiveram, quase sempre, imóveis. Sei que, quando os amigos ou conhecidos me disseram que estive bem, o "estar bem" é não ter comprometido. Antecipei algumas perguntas, mas nunca fui capaz de as abordar como abordo qualquer tema por escrito. Fico sem ideias e sem vocabulário, sem cultura, esqueço-me, sou eu próprio a folha em branco, desconheço e estranho aquele processo físico em que o cérebro se tem de antecipar, e rapidamente, a tudo o resto. Olho para cima e para baixo, se tenho muitas ideias gaguejo, se tenho uma só digo pouco. Não sei fazer nada primeiro com a cabeça. Gelo. Fico preso de movimentos.

Só um momento me faz justiça: quando a incapacidade, - esta imensa incapacidade de honrar a vontade de comunicar - sai quase como um pedido de desculpas pendurado no sorriso e nos meus olhos se consegue ler a humildade e o respeito pelo interlocutor.  Momentos houve em que foi possível comunicar pelo silêncio e pelo toque, mas antes ou depois do directo ou da gravação, nunca durante.

A reflexão, contudo, deu-me o mapa do (meu) sistema circulatório de palavras.
Conhecer-nos é um contributo para sermos melhores perante todos.

* pela caneta ou pelo lápis estou moribundo. Sou da geração que está em crise com a caligrafia e em relação com a dactilografia. Não dramatizo. Aliás, ao escrever à mão devemos ter apenas o dever cívico da perceptibilidade. Concordo com o exercício de caligrafia das crianças na primária, precisamente pelo treino de perceptibilidade, mas discordo que continuemos a querer descaracterizar a letra dos miúdos do quinto ano em diante. Apenas as profissões que têm a caligrafia como parte do seu objecto, que praticamente já não existem, devem manter essa preocupação de retirar todo o sentimento e personalidade das letras para atingir uma caligrafia média. Essas profissões, enquanto sobreviverem, fazem parte de especializações. A letra, devendo ser perceptível, deve também conter sentimento. Mostrar a um menino a letra redondinha de uma menina como modelo é falta de respeito pela sua idiossincrasia. Não tenho caligrafia. Não quero ter. Quero ter letra nos raros momentos em que precise dela. Escrevo em letra de forma há muitos anos. E nem me digam que se deixaram de escrever cartas por causa disto. Eu faço por, desde que me lembro, dizer ou escrever uma coisa diferente a alguém todos os dias. A minha mulher é a mais bafejada, claro, mas não há amigo ou conhecido que não tenha direito à minha carta escrita, mesmo que seja oral, durante a vida. Tenho esse vício de comunicar e de dizer o que tem de ser dito, antes que a morte.
Tem havido pessoas que acham que essa alma sempre aberta está disponível para a desbunda, outros assustam-se, pensando que vão ser colonizados por mim. Mas quando eu digo que dou a alma - por vezes até parte do corpo - a todos não quero dizer que permito que excedam o meu acto de dávida e o queiram tornar uma obrigação regular ou reiterada. Aceito uma dádiva de resposta, não duas. Porque eu regresso sempre ao meu canto e desapareço. É o meu defeito, o meu excesso de pathos, como tão bem me leu o Zé Mário Silva.:). 

PG-M 2011

3 comentários:

ana b. disse...

De repente recordei-me de uma personagem do Ponto Ómega de De Lillo, que tinha muito vocabulário,exceto quando estava a falar com alguém:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

isso, Ana, isso:)))

elbett disse...

Dizer o que tem de ser dito - a urgência de não deixar nada por dizer.És o escriba de ti.
Que orgulho ler-te. A sorte dos herdeiros das tuas palavras.
Obrigada 1000X