2011-08-30

Eu e os críticos (e o livro no público)

Abro hoje uma excepção para falar da literatura cá de casa.
Em Portugal não é considerado de bom tom dialogar com os críticos. Se, por um lado, entendo esse pudor, estou certo de que a vontade dos mais sérios é precisamente a oposta. Cfr o memorável diálogo Saramago - Zé Mário Silva, que só aconteceu porque Saramago rompeu com o tom.
Escolho este momento depois da recensão de um dos mais entendidos críticos portugueses, o Miguel Real, que elejo, objectivamente, como a mais favorável de todas as que tive, porque veio de quem veio: o Miguel é professor de literatura e filosofia, romancista e ensaísta premiado, escreveu sobre Agostinho da Silva, Eduardo Lourenço, José Saramago, Eça, sobre a história da nossa literatura e muito mais. Posto isto, foi com grande pudor e humildade que recebi a crítica do Miguel Real ao meu livro "A manhã do mundo". Ele, que estudou e escreveu sobre os maiores, dizer que eu trago novidade na forma como trabalho as personagens é, por si só, marcante e inesquecível.
Em absoluto silêncio deixou-me a recensão do grande Urbano Tavares Rodrigues: chamei-lhe o meu óscar. Emocionou-me profundamente. Podem lê-la aqui.
Com isto não enjeito o que aprendi com todos os que escreveram sobre o meu eu literário e sobre o livro que a D.Quixote me deu a honra de publicar. Só o facto de ser objecto de análise de quem quer que seja tem sido um privilégio para quem nada esperava. A Rita Bonet conseguiu, nos parcos caracteres que lhe disponibilizaram na grande revista "Os meus livros", tocar a essência do que escrevi e da forma como o fiz - um arrepio o título: "Oh blue bird, take me away" (uma música da Rita Redshoes, que está no livro). O Zé Mário Silva reconheceu no Expresso a eficácia que eu quis imprimir à narrariva e fez-me reflectir sobre as minhas fragilidades estilísticas e sobre o meu "pathos". Pegando nele, o João Bonifácio, no Ípsilon (suplemento do Público), trouxe-me um sorriso sincero, na menos favorável das críticas que tive, ao falar da minha "voz off sempre on" - afinal, eu sou mesmo assim - e a dar nota clara de que queria ainda mais corpo e história nas personagens que criei a partir de factos reais (e eu sabia o risco que corria ao tentar o simbolismo e ao ter de descarnar as personagens). Mas tive contributos preciosos de nomes menos sonantes, mas de muita ciência, que olharam para o que fiz de ângulos notáveis: destaco a forma como o professor Abel Dias Ferreira me trouxe uma tocante comparação com Gil Vicente, a de um excelente escritor e operário da literatura (trabalha para o milagre em que se tornou, neste país, o diário do Câmara Clara), Pedro Teixeira Neves, autor de um livro que merecia um olhar mais atento, "Uma visita a Bosch", a recomendação do João Céu e Silva no DN Artes e, mais tarde, numa curiosa abordagem na revista NS, e as emocionadas e emocionantes críticas de Márcia Balsas e do blogue "O prazer da leitura". A visceral de Artur Carvalho. A informada e atenta do Pedro Brás Marques. Não esqueço as apreciações primeiríssimas e tão importantes das queridas Sónia Alcaso e Elsa Bettencout e do Francisco José Viegas. E, claro, o elogio público nos lançamentos: Maria do Rosário Pedreira, Joaquim Letria e Professor Pinto da Costa. Foi também muito bom ouvir todos os que estiveram presentes na sessão de autógrafos na Feira do Livro do Porto. O livro integrou ainda o top 5 das escolhas de Maria do Rosário Pedreira no Atual, Expresso. Gostei também de integrar o cabaz de férias do exigente blogue "Alegre ou triste" e das entrevistas da Antena 1, do JL e do jornal "i". Last, but not the least, o melhor de todos os momentos: o que passei com o Joaquim Letria em Azeitão, numa conversa com gente boa e simples que, para mim, ficou como modelo do que quero para e da literatura e podia ter durado mais do que as duas horas e meia que durou. Há algo de que não abidco: do tempo - sei que só passaram três meses, e para três meses parece tudo um exagero. Mas para mim não são três meses, são trinta e cinco anos de literatura - na sombra, sem pressas, sempre a escrever. E, fora a aparição no Porto Canal com o excelente Tito Couto (nesta menção e numa entrevista posterior no programa), nem sequer andei pela televisão. O livro sim, brevemente, na TVI24, pela mão do Paulo Sérgio dos Santos, e no "Mais mulher", da Sic Mulher, pela mão da Maria João Lopo de Carvalho e da Ana Rita Clara. E tive a honra de ser escolhido pelo Diário Económico como uma dos nove novos portugueses ilustríssimos na literatura. Livreiros e leitores voluntariosos conseguiram levar o livro, logo no princípio de Junho, ao sexto lugar do top literário Bulhosa, mas nunca é tempo de parar de lutar: com optimismo e alegria, porque, se o mundo está difícil, morta a fome, nada é tão maravilhoso e necessário como a arte.
E, na arte, esta nossa maravilhosa literatura.
Obrigado a todos. Convosco ficarei sempre pequeno como sou, e no meu lugar, que é honrado mas de pouco espaço. Convosco sempre crescendo. E não, não são movimentos contrários. Nada é absoluto, excepto a humildade. 
PG-M 2011
fonte da foto: Portugal Ilustrado

PS: depois deste artigo, a efeméride do 11 de Setembro levou-me às televisões, a saber:
- como único livro recomendado no Domingo, 11-9, pelo professor Marcelo, aqui
- RTP2, Câmara Clara aqui
- RTPn, na própria tarde do 11 de Setembro, e Porto Canal aqui
- Mais mulher, Sic Mulher, aqui

6 comentários:

elbett disse...

Eternamente grata por teres transformado uma das manhãs mais tristes da minha vida num mar de hipóteses bem menos revolto.

Alexandra A. disse...

Parabéns por estes 3 meses e por esses 35 anos!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado eu, Elsa:). E Alexandra, claro, claríssima.:)

Rita Bonet disse...

Foi um prazer ler a manha do mundo e trocar impressoes contigo.
(já sabes...o meu teclado sem "til"...)

Maninha disse...

O cabaz foi só uma gracinha. Esta criatura "exigente" gostou tanto do teu livro que tem uma texto em osso vagamente intitulado "Variação sobre Alice" (a preferida) à espera de uma inspiração que lhe faça jus.Talvez um dia...Obrigada, Pedro. Um beijo.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Rita, a tua critica foi a mais empática de todas, quase como se já tivesse partido de dentro. Maninha, não deve haver emoção maior para quem escreve do que sentir que podemos inspirar a arte maior de terceiros. A Alice tem levado a palma a todos os personagens. Já foi a que impressionou mais o Prof Pinto da Costa e tem-se destacado por si. Muito curioso. E obrigado.