2011-08-01

A bondade é uma palavra redonda e devia ter mais arestas para que os amargos lhe cedessem


Estou condenado a ver a beleza. Que se reflecte nos objectos. Não acredito na maldade orginária. Acredito que o pérfido pode ser adoçado se o tomarem por bom. A outra face, pois. Que somos todos capazes de coisas maiores se os mais fortes carregarem os mais fracos. Que a vida pode ser boa num ciclo de dez minutos, os dez minutos antes de ele morrer de cancro, que ocupamos entre os nossos beijos na testa suada e o sorriso dele entre gemidos. Se encostarmos a velhinha ao nosso corpo forte e, com a mão direita, conduzirmos a colher de chá com água aos seus lábios roxos e depois a libertartmos com o seu doce rastilho a queimar devagar até ao fim. Ela deitada, serena, a dizer a vida toda em seis frases e a desfalecer serena. Talvez falte muito para que, do lado de lá da beleza, eu consiga atingir a bondade. A bondade é uma palavra redonda e devia ter mais arestas para que os amargos lhe cedessem. A celebração da vida, o altruísmo calado, a felicidade à luz dos outros, as lágrimas necessárias, tudo, tudo é encarado como uma insuportável desfaçatez pelos menos bons entre nós, pelos que estão convictos de que ser assim é só aparentar ser assim e de que aparentar ser assim é de uma falsidade sem precedentes e que se tem de dar a tal indivíduo uma noção dos penhascos da vida, até empurrá-lo para um para que aprenda. Quando é que o pai deixa de testar o filho e o abraça? No leito da morte de um deles? Quando é que um amigo a quem a vida não sorriu (a quem não encheu de coisas boas, até tirou) percebe que o braço forte do puto que com ele rasgava os joelhos no futebol de rua não é uma declaração de superioridade? Quando é que a valoração das pequenas coisas deixa de ser egocentrismo - não é aí que está a emoção dos dias, no que se mostra e se ouve, no que é ouvido e mostrado? Porque é que o fogo de artifício de um gesto tem de ser uma agressão à indelével tristeza dos homens? E no fim de tudo, puta que pariu, deixa-se a mão na face da pessoa que nos apoucou porque se acredita, acredita sempre, que o calor da nossa pele resgata o melhor dela.  A quem nos falha sempre não devemos falhar nós. E se o nosso corpo nos disser que já chega, afastemo-nos sem nunca fechar a porta. Ser muito bom não depende do sucesso social, nunca dependeu. E ao amigo não devemos ter vergonha de pedir abrigo. A bondade é uma palavra redonda e devia ter mais arestas para que os amargos lhe cedessem. É a maior guerra de todas.
PG-M 2011

fonte da foto

Sem comentários: