2011-08-12

Aos verdadeiros amigos (reflexões sobre o processo criativo)

Nota prévia: mais uma vez, este texto que agora partilho convosco foi enviado como agradecimento a um grupo de amigos juristas que têm estado sempre presentes e que têm de levar com longas ausências minhas num "lugar" onde antes nunca faltava; de quando em vez, faço uma apanhado de alguns pensamentos que quero partilhar com eles; às vezes, sinto que também os posso partilhar com todos. Obrigado



"Os maiores crápulas que conheci eram de falinhas mansas. Um escritor que se preocupa apenas com o seu trabalho, ler e escrever, não tem tempo para prejudicar os outros."  Gonçalo M. Tavares, transposição (livre) minha.


(...)
Eu sei que cresci, mas não cresci tudo.
E para crescer mais estou atento aos maiores.
Ando há muito atento a um "puto" mais novo, o Gonçalo M. Tavares, que considero melhor do que o Pessoa em alguns aspectos. Comparar é poucas vezes bom, ajuizar menos ainda, mas eu tenho necessidade de exaltar o Gonçalo, de o elevar, desde já, a um plano superior aos demais. Não digo que gostasse de ser como ele. Gostava de ter coisas que ele tem: um cérebro matemático. Querem ver que eu me tenho apercebido, nos últimos tempos, que me faz muita falta a matemática e outras ciências puras para escrever melhor? Muito mais do que certas humanidades. Faz-me muita falta algum vocabulário limpo. Ler o D.Quixote é terrível, por exemplo. Fiquei a gostar da palavra morrião e ninguém sabe o que é um morrião. E não consigo chamar nada melhor do que rocim a um bicho que vou conduzir por aí.
E os lugares-comuns? O Gonçalo tem uma certa razão: um escritor não pode escrever "mar de lágrimas". Mas depois questiono tudo isso. Tudo isto.
Questionei-o na manhã do mundo. O Lobo Antunes também tem razão: nenhum escritor que respeite os seus leitores pode sair a terreiro se não achar que é bom. Mas eu tive de pensar se queria avançar com as intermináveis e intragáveis teias psicológicas e parágrafos barrocos que urdi nos primeiros manuscritos, ou se queria e devia integrar o leitor no conceito técnico da literatura que produzo. Integrei. Não sei se este livro satisfaz os escritores, os que buscam fórmulas novas. Realmente, este livro tem o meu tom e a minha falta de peso sobre as teclas. Tem o que tirei. Por eu achar, em algum passo do mecanismo da máquina monstruosa que me leva ao branco da página, que a maior literatura pode ser precisamente a mensagem sem estilo ou com o mínimo de volteio. Por isso, o que eu faço neste livro é compor música ou escrever um longo poema: dou uma história ao leitor, têm-me dito que o consigo agarrar (coisa nova em mim) e, no subtexto, às vezes no texto (gosto muito do que deixei nas histórias de A a Z), deixo para os mais esfaimados o que escondi ou pus menos visível.
Por outro lado, sabemos que o equilíbrio entre conhecimento e vivência (maturidade) nos traz coisas boas. Mas quantos não são os escritores que se deixam cair na mediocridade no fim da vida? A mim ainda me dói "A caveira da mártir", do Camilo, em que ele perde metade do livro (e por isso perde o livro) a defender-se dos realistas. Estava no último terço da sua vida literária.
Mas uma coisa é certa: o que produz quem escreve exige trabalho e atenção permanente e está disponível para se gostar ou detestar. Se eu não desgostasse de certas coisas de escritores que adoro, não sentia tanta alegria quando lhes reencontro o génio. E quantas vezes eu não fico satisfeito com algo que escrevi e revi ao osso, e deixo de gostar um mês depois? (...)
O mesmo Gonçalo diz que os maiores crápulas que conheceu na vida são de falinhas mansas. Os melhores conseguem parecer arrogantes. Fiquei em paz quando ouvi isto. Quantas vezes não pareço arrogante.
Abraço a todos, PG-M (...)

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