2011-07-06

Sobre um livro que ficou escrito e está a ser lido ("A manhã do mundo")


Separei para todos algumas palavras recentemente proferidas num fórum, porque considerei que o mês (que, para mim e para minha vida pacata, foi) de loucos passado desde o lançamento d'"A manhã do mundo" em Lisboa justificava que esta reflexão fosse partilhada aqui - e eu não consigo dizer esta coisas em entrevistas televisivas ou radiofónicas:)):

"(...) Construir livros é mesmo um trabalho árduo que exige rigor e disciplina, sabendo nós que haverá sempre alguém que não estará satisfeito. (...) Agora, isso sei-o, só deixo este trabalho com a morte. Terei momentos bons e momentos maus, e momentos bons que serão considerados maus amanhã e momentos maus que serão considerados menos maus. Não sou orador - só com muito esforço tenho conseguido disfarçar, em entrevistas em rádios, televisões e até escritas, o grande abismo que separa o meu pensamento das palavras ditas, muito maior do que o abismo que o separa das escritas. Mas faz parte da selva comunicacional (este maravilhoso acesso a toda a informação que acaba por não deixar que ninguém tome atenção - e os livros ressentem-se tanto!): hoje o escritor tem de se vender junto com o livro (não é inocente esta formulação "brasileira" - sou da geração Houaiss e mais além: escrevo noutras línguas, quando as sinto mais presentes em mim - e terminarei esta alocução com um poema directamente escrito no italiano, para que percebam).

Há só uma coisa que me emociona e me orgulha neste livro que agora vos deixo: o ter sido capaz de me conter, de me abster. Lobo Antunes repetiu (porque já tinha dito) muito recentemente que se deve tentar meter a vida toda dentro de um livro. Apesar de ele ter sido o mestre que me desbravou a página, como Saramago o parágrafo, Askildsen a frase e Pessoa o sentido (porque a contenção veio da minha editora Maria do Rosário Pedreira), discordo hoje do que ele diz. Este livro - o tal que me orgulha pela contenção - encerra 35 anos de literatura e não me peçam que a minha humildade passe por apoucá-lo, e vale precisamente por se ter sido capaz de deixar de fora muito que apetecia ter dentro:

Apouco-me a mim, sem dúvida, o que valho eu? Mas o livro não.
O livro tem tudo o que de melhor eu quis deixar do que aprendi dos "meus" melhores americanos, russos, ingleses e latinos (entre os quais aqueles dois portugueses) e já alguma coisa de um nórdico. Não é bem uma história, são movimentos de imagem e pautas musicais interpretadas pela caneta. Aparentemente a tentativa de depuração gerou um "page-turner" (foi a minha maior surpresa, porque não sabia fazer uma coisas dessas), e o descarnar das personagens um lugar para ficarem repletas da carne do leitor, que me tem relatado ficar com elas no corpo. Tudo efeitos imprevistos, mas dos quais fico grato: eu, por mim, tentei apenas o impossível - entrar na pele dos saltadores e relatar-lhes a morte como culminar de vidas, deixando o horror de fora. E como se consegue que o horror fique de fora quando se relata, detalhadamente, a morte? Vão ter de ler:).

Não estou a vender o livro. Podia escrever páginas sobre páginas sobre páginas sobre o processo, porque o que fica é apenas uma amostra simbólica de um processo - e a sabedoria da editora (acima de tudo grande leitora) - a Rosário - está na escolha da melhor forma para um objecto que tem mais de infinitude do que de finitude: a forma que permite que o leitor, em várias camadas e várias leituras, descubra todo esse detalhe.

Sim, comprar o livro é importante - o meu trabalho tem sido ir ao encontro dos leitores improváveis: o meu livro está a ser lido - e falo de leitores que falaram directamente comigo - por crianças (a mais nova tem onze anos), professores universitários e pessoas com a quarta classe, entre muitos outros. Todos, sem excepção, têm relatado experiências positivas. Muitos precisam de fôlego entre páginas. Alguns outros - curiosamente os mais exigentes - ficam arrebatados. Eu fico parvo.

Não fico vaidoso. A literatura está fora de mim - está nos outros. Sinceramente, admiro-os e não consigo sentir, por um momento que seja - e isto não é treta - que há sucesso meu ali. E o único prazer que sinto na minha exposição é o orgulho que sente quem me ama e/ou sempre acreditou em mim. E deixo que essas pessoas partilhem tudo, porque são, quase sempre, melhores do que eu.

E, para cumprir o prometido, porque vai longa a exposição, encerro com o poema que referi supra, e que tanto me orgulhou escrever, sabendo que foi lido em Itália sem clivagens de linguagem:

Stilografica

Io sono la stanza dove la parola sanguina
Io sono una rima sul letto
Io sono la frase dentro
l'armadio
E quando la cameriera viene
a pulire
Lancia poesie dalla finestra
E io torno a casa e vedo
versi
Sulle scarpe della gente

PG-M 2010

(Tradução: Caneta de tinta permanente/ Eu sou o quarto onde a palavra sangra/ Eu sou uma rima sobre a cama/ Eu sou a frase dentro do/ armário/ E quando a criada vem/ limpar/ Lança poemas pela janela/ E eu volto a casa e vejo/ Versos/ Nos sapatos das pessoas)


Um profundo agradecimento,

PG-M 2011 (...)"

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