2011-07-26

O obsessivo mergulho literário


Ocorreu-me hoje debaixo de água: dou por mim a ter menos respeito por quem, pura e simplesmente, não se consegue disciplinar para ler. E tenho uma obsessão de ajudar essas pessoas a adaptar a sua vida para ler: uns dizem que gostam e queriam, mas não têm tempo - a falácia mais comum; outros que não gostam de ler - também não é difícil mostrar que há sempre um livro adequado a cada alma. Recentemente, com a aventura de lançamento do meu primeiro livro visível (porque escrevo e leio - também obsessivamente - há trinta e cinco anos), dediquei-me aos que nem sequer pensam em livros: ou pensam que não são para eles, porque são pessoas simples e se sentem ignorantes e limitados, com a aspiração máxima a dar uma volta no shopping ao Domingo, e mesmo assim sem parar em livrarias - a sessão de Azeitão foi uma lição inesquecível para todos nós. Depois nadei umas centenas de metros com os olhos abertos sob as águas límpidas, emergi e deitei-me na água, a olhar o céu azul e a ouvir, ao longe, os barulhos da praia - eu gosto de praias cheias, gosto de gente, de sons indistintos e nem sequer me importo de um ou outro grito, desde que isolado, porque para as velhas monocórdicas que falam da vida alheia na toalha ao lado, para essas, e fora uma música boa e alta nos headphones, não há solução. Saí para a toalha, as gotas a deslizar sobre a pele, cada mergulho é uma espécie de renovação, o conta-quilómetros a zero, começar de novo. Minimal. Zero, areia, toalha, pele, sol, mar, zero. Mergulhei de novo. Lá em baixo está verde claro e eu nunca vejo tudo, tenho a bênção de ser míope e de ver o mundo desfocado sem óculos,  de não ver o que não interessa e para o que interessa ter os amigos a convocarem-me, a mostrarem-se, a fazerem questão. Mas estou sempre a pensar em livros, em escrevê-los ou lê-los, mesmo debaixo de água. Não levo para a praia nada que me ligue ao mundo em directo. Tenho receio de dizer a quem quer que seja que outra obsessão, mais uma, é o suplemento literário do El Pais de Sábado, o Babelia, porque fica demasiado bem e demasiado distante do homem regular. O homem sem qualidades? É o que sinto, sem dúvida, e, não me tendo por presunçoso, é certo que o sou. Intensamente. Ao terceiro mergulho penso como me irritam os ignorantes, os verdadeiro ignorantes, que não só não querem ser convencidos de que a leitura é fundamental à construção do tempo e, no tempo, do ser humano, como têm a lata de me apontar o dedo, dizendo-me não ser diferente de outros obcecados (por futebol, por sexo, por televisão): mas acusar-me de ser obcecado por livros (já agora, bons livros - porque ainda hoje um "estudo", mais um, dizia que a literatura cor-de-rosa fazia mal às pessoas que a liam), digo sempre, é a mesma coisa do que dizer que sou obcecado por olhar para o meu semelhante. Porque os bons livros são sempre isso, um olhar ao nosso semelhante. E esses palermas chegam a meio de férias de praia a queixar-se de tédio, sem reparar que quem lê raramente é afectado por tal coisa. Rio-me muitas vezes cá em casa. Andamos sempre a correr para ter tempo para ler. Se se perde tempo a ir a um supermercado, a um shopping, se se exagera na sesta, no jantar, no café, lá se vão os minutos de leitura em que somos tudo. Uma só página por dia pode dar dois livros por ano - quem se toma de prazer a ler "A Bola" durante uma manhã está no seu direito, mas...e o resto? O resto que é quase tudo?
Mergulho de novo no verde e deito-me na água. Hoje acabo o Halfon e começo o Mitchell. A Hélia faz sempre par com outro livro e ainda vai durar mais um ano comigo. A única certeza que tenho é a de que serei pior pessoa se deixar de ler. Como sou quando leio menos. E debaixo de água tudo se torna claro.
PG-M 2011
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