2011-06-28

poesia a grão para moinho de café

hoje não me sento na cidade
e por isso não passo de sombra
com cidade dentro de mim
antes disto
o cheiro do café que me trazia
o senhor adão que não teve
psicologia
mas tinha dentro de si o entendimento
dos grandes nadas do dia
agora começo em frente ao mar,
e embora mar seja um lugar comum,
tem dentro de si todos os olhares
das pessoas sem esperança
e hoje ainda por cima a maresia
cheira à pele rosada dos bebés
no dia da primeira praia
e os bebés com protector solar
contêm a fragilidade
e a força dos infinitos
levanto-me da esplanada e deito lume
à possibilidade
e fumo
a boazona está dentro da areia a rir
talvez de mim
mas não dentro, sequer fora
do universo,
converso
com a peixeira
que segura a perca nas mãos
com lascas
e explico-lhe que choro
porque não sei cavalgar
nem jogar xadrez
e ela diz-me por amor de deus, doutor,
nesta altura da vida vai-se abaixo
por tão pouco? e eu sei
que não quer resposta
porque quando me põe o troco nas mãos
me cinge os punhos com as suas
vá tomar um café ao esteves
sem metafísica
e então sou eu que,
perante a cara dura do esteves,
lhe deposito poesia nas mãos
tire-me isso curto
com cheirinho
e há um sorriso médio
aos dois,
que é como se suporta a dor fina da vida

risco duas equações no papel do bolo de arroz
especialidade da casa
e mudo o mundo

PG-M 2011


2 comentários:

helena frontini disse...

Como posso ter perdido uma pérola destas? Uma revisitação, um acto de intertextualidade perfeito!
Ah, gosto mesmo disto! Anda por aí tanta coisa com nome de poesia que me arrepia a pele, sem esta força e este exercício que revela um conhecimento dos Grandes.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, querida Helena. :)