2011-06-06

Maria do Rosário Pedreira sobre "A manhã do Mundo"

Como sabem, tenho evitado confundir a vida do livro com este blogue mais pessoal, mas o lançamento de Lisboa, no dia 2 de Junho, foi também pessoal, pelo que está prometido um texto sobre esse dia aqui mesmo. Agora publico as palavras que me foram dirigidas pela Maria do Rosário Pedreira, que muito me honram - e que não esquecerei tão cedo. PG-M

"(...) Há cerca de um ano, uma notícia (que, graças a Deus, acabou por revelar-se pouco mais do que um boato) fez correr muita tinta em jornais e bater muita tecla em blogues de opinião por todo o lado. Rezava a maldita que no Reino Unido fora tomada a decisão de retirar o Holocausto dos programas de ensino para não ferir a sensibilidade dos muitos alunos muçulmanos que ali vivem. Ainda antes do desmentido, o mundo insurgiu-se contra tal branqueamento, alegando que, por melhores que sejam as razões e as intenções, há factos históricos demasiado terríveis para serem simplesmente ignorados ou esquecidos; e, mesmo em Inglaterra, onde o jornalismo é pouco dado a exibir as feridas das suas tragédias (nunca se viu na TV um só lampejo de como ficaram as carruagens de metro depois do atentado de 7 de Março em Londres), muitos insistiram em que, para não repetir o horror, é fundamental partilhá-lo e lembrá-lo, seja através das suas próprias imagens, seja através da sua evocação ou representação artística.
Uma pessoa que conheço bastante bem foi há uns anos a Auschwitz a convite do governo alemão e veio de lá marcada por uma imagem pungente que conseguiu sobrepor-se a todas as que já vira ao longo da vida dos campos de concentração: no museu, penduradas num cordel, alinhavam-se, quase candidamente, as roupinhas minúsculas de bebés que ali tinham perdido a vida. De imagens tremendas como estas, desviamos os olhos, se pudermos – mas isso equivale, de certa maneira, a fingir que não aconteceu. O problema é que, às imagens que o nosso olhar já consegue suportar, de tanto as ter visto e revisto, acabamos por habituar-nos – e isso equivale, de certa maneira, a esquecer que aconteceu.
Para podermos manter o nível de escândalo, raiva e repúdio pelo exercício do mal em todo o mundo e em todos os tempos (e só falei do Holocausto nazi porque este livro o refere mais de uma vez), as imagens, por mais dramáticas que sejam, nem sempre bastam e, muitas vezes, são até menos eloquentes e eficazes do que as dezenas de livros, filmes e demais representações ficcionais e estéticas das tragédias. No romance Tudo o que eu tenho trago comigo, da Prémio Nobel da Literatura Herta Müller, a fome pareceu-me, por exemplo, muito mais escandalosa e visual do que em alguns clichés fotográficos de crianças africanas na National Geographic. A arte – à qual não é preciso virar a cara por ser bela – pode ser, nessa medida, uma forma superior de prolongar a memória de tudo aquilo que não pode nem deve ser repetido.
Passam agora dez anos sobre o atentado de 11 de Setembro na «cidade sagrada de Nova Iorque» [expressão do autor]. E aquela sequência exibida até à exaustão nas televisões de todo o mundo da primeira Torre do WTC rasgada pelo fogo, e do embate, em directo, do segundo avião na outra Torre, corre o risco de perder força, de se banalizar e de, por isso mesmo, nos incomodar cada vez menos. É, pois, preciso pugnar para que a memória não se apague lançando mão de outros recursos, e A MANHÃ DO MUNDO, o romance que hoje lançamos, parte de histórias reais para construir, com a arte da ficção, uma das mais belas homenagens às 3000 e tal vítimas desse atentado: bela literariamente, bela porque de certa forma redentora, bela também porque, dando um rosto às vítimas e inventando-lhes uma vida que, a perder-se, terá em certos casos consequências funestas para os vivos que dela dependem, nos faz sentir culpados se ignorarmos ou esquecermos o que aconteceu nessa manhã. Desse modo, esta estreia de Pedro Guilherme-Moreira torna-nos, num certo sentido, melhores pessoas – pessoas como, no decurso da tragédia reencenada neste romance, são Thea, Mark, Millard, Alice, Solomon, ou mesmo Ayda, a louca para quem a morte pode ser, afinal, a única forma de salvação; pessoas como os grandes heróis desse dia: bombeiros, paramédicos, militares, voluntários e mesmo companheiros de infortúnio que seguraram na mão da pessoa ao seu lado no derradeiro minuto para que não se sentisse tão sozinha no seu destino inescapável; pessoas como, ao fim de longos meses de contactos, conversas e até pequenas zangas, concluí ser o próprio Pedro Guilherme-Moreira – que, para mim, se revelou assim uma espécie de (não se riam) Coca Cola humana que, primeiro, se estranha e depois se entranha.
Quero agradecer-lhe, pois, ter escrito A MANHÃ DO MUNDO, ter-me arrastado para junto dos que saltaram das Torres Gémeas no dia 11 de Setembro de 2001, ter-me até permitido saltar com eles nestas páginas e perceber, com a literatura, que a memória não basta, que é preciso continuarmos a combater o esquecimento. Ler este seu livro – garanto – é uma excelente forma de o fazermos. E, ainda por cima, sem nunca precisarmos de desviar os olhos. (...)"
Maria do Rosário Pedreira, Junho de 2011

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