2011-06-29

Diz que os velhos morreram na semana passada um a seguir ao outro


Eu pensava que tu ias colher os trejeitos
e ficar vazia à mesa sentada comigo
e ter a primeira de todas as conversas
da nossa vida
e afinal
ficámos a dizer o mesmo que dizemos
sempre
cheios, poluídos, indiferentes
sem olhar
o olhar que guardámos um do outro às cinco
da tarde do dia treze
de outubro de mil
novecentos e quarenta
e esquecemos como era às nove
da manhã do dia treze
de outubro de mil novecentos
e cinquenta
e que de vez em quando nos passa
à frente no passeio como um velho
amigo
de quem temos tantas saudades
mas não interpelamos
sabemos sempre no meio da multidão
o quanto nos amámos,
que por ser indelével é tudo
o que amamos
e amaremos sempre
como sempre
ficamos vazios à mesa
sentados um com o outro
sem saber ler

agora tenho o que fazer, dizes tu,
e eu desdobro o jornal
sobre a mesa
e em vez de ficar calado, desta vez
pergunto-te
tens consciência de que vamos passar assim a eternidade?
calados, ao lado um do outro,
com uma pedra branca por cima
e que o silêncio da casa só é amor
quando se diz imediatamente antes
e imediatamente depois
de passar o pano do pó
nos móveis
e que não fica assim, por si,
no verniz do aparador
entre as páginas dos livros
que deixamos de tomar nas  mãos
no ponto mais alto da casa
no chão aonde não chegamos?

sim, tu disseste,
e eu voltei ao jornal
e as tuas lágrimas de costas
estavam nas minhas
mas continuámos calados

tu apareceste no jornal no dia doze de outubro
eu a catorze
e disse-te tudo
por dizer
no dia treze,
e tu a mim

PG-M 2011

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