2011-04-14

Vinguemo-nos, então

Começa a ser recorrente escrever que é escassa a crítica cinematográfica dirigida a seres humanos: é algo injusto que o cidadão que paga um bilhete de cinema não tenha quem lhe diga, com clareza e simplicidade, que filmes são mesmo para ver, e as estrelas perdem o seu efeito prático quando, lado a lado, críticos experimentados dão o mínimo e o máximo, como se isso fosse possível, e nenhum grau de objectividade tivesse cabimento. Nestes casos, é quase certo que quem se enganou foi o crítico que deu o mínimo, pois se um colega experimentado lhe achou tamanhas virtudes para lhe dar o máximo, é o senhor do mínimo que assume a proporção que a nota lhe dá. Ganhar um óscar também pode ser um estigma para aqueles que não pretendem ser reduzidos a uma máquina de promoção eficaz - e o vencedor do óscar do melhor filme estrangeiro é sempre o mais bem promovido. Hævnen, o título do filme dinamarquês que ganhou o óscar do melhor estrangeiro em 2011, quer dizer "vingança". É bom reencontrar a excelente actriz Trine Dyrholm, que já tinha deslumbrado em "Troubled Waters" - que também teve direito a crítica neste blogue - , é bom ficar pendurado pelos cueiros num filme que nunca nos deixa, verdadeiramente, descansar, do primeiro ao último segundo. Susanne Bier transmite-nos, em planos bem estudados e com um director de fotografia competentíssimo, a vertigem da natureza humana. Oferece-nos também um travo de literatura nórdica, que nem sempre é agradável, mas quase sempre é brilhante.
Não tem maus actores, bem pelo contrário, aborda os problemas de sempre, mas de outra perspectiva: as disfuncionalidades num contexto de educação e sucesso pessoal. A realização de Susanne transforma a aparente banalidade da abordagem frívola de um tema em algo de sórdido, que nos faz pensar sempre no pior. A bondade de um ser humano exemplar anda lado a lado com o seu lado negro. E tem Trine, pelo menos Trine, merece as nossas duas horas, uma tarde, uma noite diferente. O filme é muito bom, mas, claro, pode fazê-lo. Pode vingar-se. Pode matar.


2 comentários:

o gambozino disse...

Tens tanta razão, há anos que travo uma batalha interior com os críticos da Ípsilon, desde que deitaram abaixo o "Lady in the Water" do Shyamalan numa crítica ao filme baseada num livro anti-shyamalan. Carregam aquela intelectualidade pseudo-superior, não sabem criticar uma obra como um único acontecimento universal.
Abraço e parabéns pelo livro!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado. Quem quer que sejas, obrigado:). P