2011-04-04

A minha gente (bem regadinha e iluminada)

O idiota que mandou desligar a luz da Luz e regar os novos campeões não deve ter antecipado que ia ter a sua própria gente contra si. Nos tempos que correm, velar, amordaçar, esconder, agredir, impedir festa ou riso não é popular nem aconselhável. Vivo no Porto, e é o Porto, acima de tudo, não especificamente o FC Porto, que me importa. E há tanta gente que confunde uma (grande) coisa com a outra. Como tripeiro, convivi toda a vida com centenas de benfiquistas, amigos de farras e futebóis, férias e trabalho, e não deixo de estar ao lado deles por causa de um jogo de futebol. Sorrisos amarelos do lado derrotado é o máximo que se vê. Mas mesmo esses são raros. O ano passado assisti com gosto, da minha janela, aos festejos dos benfiquistas. Depois de ser certo que o Porto não renovava o penta, passada a breve desilusão, eu - e não só eu - não consigo estar triste perante a alegria alheia. Isso seria ser pequenino, e eu sou um matulão:). Quem já me lê há uns anos, sabe que, praticamente, só escrevo sobre bola quando o Porto perde, e principalmente quando está em "crise", ou seja, quando os falsos adeptos, os cobardolas, fogem e vão para a porta dos centros de estágio agredir atletas, dirigentes e treinadores do próprio clube. O desportivismo constrói-se na derrota e exerce-se na vitória. Em 40 anos, não me lembro de felicitações tão rápidas e francas dos amigos benfiquistas. Aliás, posso estar esquecido, mas não é hábito dos seis milhões felicitarem outros. Razão pela qual não tenho dúvidas de que, tanto o apagão como o regadão, fizeram pelo desportivismo o contrário do que pretendiam. Porque a minha gente não é a que atira pedras e destrói estações de serviço e conspurca o nome do clube (e da cidade) que diz amar agredindo pessoas que vestem outras camisolas, muito menos uma cambada de arruaceiros empenhada em dar cabo do desporto e do sossego dos outros. A minha gente tem sotaque largo, é de todos os clubes, e tem apenas a idiosincrasia de viver numa cidade em que a maioria dos adeptos é do FC Porto. E o Porto não sobrevive sem essa boa gente, mas vive bem sem arruaceiros que, obviamente, já fizeram disparates como o do apagão, e muito pior. A minha gente tem vida dura, mas hoje acordou anestesiada e desfraldou a bandeirinha nas ombreiras e enrolou o cachecol azul e branco no pescoço e bebeu um copito de três com o amigo benfiquista que o esperava com um sorriso malandro, a ver qual era a pior tirada. Para o ano somos nós, diz ele. Claro que são. Para o ano ou daqui a dez, que importa? O que importa é que estejamos aqui todos, a beber copitos de três, amanhã.

PG-M 2011, ex-atleta, filho de ex-atleta, irmão de outro ex-atleta e pai de sócio do FCP

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