2011-04-01

Humildemente público

Sim. Há um livro meu que vai ser publicado no final de Maio na mais prestigiada editora portuguesa: a D.Quixote. E com isso se esgota a minha vaidade, porque sim, estou vaidoso - por mim e por todos os que me seguem e acarinham há tantos anos.
Acabou ontem, pois, a minha história íntima com a literatura, e começou a minha história pública.
Não desse eu tanta importância ao recato e à humildade, nada diria.
Mas não tenho jeito para me fingir de importante e assobiar para o lado, quando efectivamente sou um zé ninguém e farei tudo por continuar a ser. E para um zé ninguém, o que conta são as pequenas coisas. Pequenas e simples. E as pessoas, todas e cada uma. E como tenho dois grandes defeitos, que são duas buscas, a busca pela bondade e a busca pela autenticidade, a tal que substitui a verdade crua, que é seguramente egoísta, não sei esconder a emoção. E agradeço os mimos. Mesmo que sejam ou venham a ser parte de uma estratégia comercial de promoção do meu nome para maximização das vendas, para que eu e a minha editora possamos comer e dar de comer a quem depende de nós. E para que possamos continuar a fazer o que queremos: eu escrever, ela editar.
Por isso, este é um momento singular, aquele em que se vê o meu nome num pedacinho de um blogue de uma editora que, dizem (não eu nem ela - e nossa história comum, que um dia merecerá ser contada, é bem mais bonita do que sentenças insindicáveis), é a melhor editora portuguesa da actualidade: Maria do Rosário Pedreira. É a primeira vez que um terceiro fala de mim como indo editar (-me) um livro. Esta menção deixa-me orgulhoso - dou-lhe valor, sim, muito.
Mais tarde, aparecerá o tema, o nome, a (belíssima) capa do livro, poderão encher-se páginas (de blogues, de jornais, de revistas, não importa), mas nenhum é tão singular e simples como este momento, o inaugural, o fundador.
Por baixo, está tudo.
O puto que aos sete anos se atreveu a fazer da professora primária a protagonista de uma fábula e nunca mais parou. Passaram 35 anos. Aos 20, este que vos escreve teve uma decisão estúpida para uma sociedade que valoriza, acima de tudo, a aparência e a visibilidade no meio, contada em antiguidade: esperar. Esperar pelos 40 para maturar tudo: a pessoa que era, a escrita, o que sabia, e para prosseguir uma carreira apaixonante como a advocacia.
Só a consciência clara da falta de seriedade em todas as actividades económicas - e do consecutivo assassínio de carácter dos lúcidos - e da rendição aos grande grupos económicos de quase todos os sectores da economia e da cultura me fez pensar que não valia a pena o esforço total do idealismo.
Passei a acarinhar a ideia de mostrar o que fazia, mostrar o que escrevia, de fabricar produtos para os comunicar às pessoas e sonhar não depender de um actividade que, exercida honestamente, leva qualquer advogado à falência - principalmente nos últimos anos.
Em 2007 fechei o meu site de informação jurídica, portolegal.com, que, apesar de construído e gerido sozinho (eu era tudo lá), foi um dos pioneiros da informação jurídica e nunca serviu para promoção pessoal ou profissional. Quando o fechei, por haver mais e melhor (quando o portolegal.com começou não havia nada), o portolegal.com  ainda conseguia ser dos primeiros a actualizar a informação e, certamente, continuava a ser o mais simples de todos. Teve mais de meio milhão de visitas (não "hits" ou "page views", visitas mesmo) no ano do fecho. Como nunca reclamei o mérito e também nunca mudei o discurso, e disse sempre tudo o que me dava na real gana ("A insolência é o meu anjo-da-guarda", dizia Einstein, e também é o meu, com os devidos respeito e distância:), nem aí fui público, até porque nunca aceitei fazer a figura do jurista do bitaite nas televisões.

Em 2007, fechei o site porque já não aguentava não escrever todos os dias, sentia mesmo urgência em parar com a poesia, que é instintiva e nunca me abandonou, e trabalhar a prosa. Em quatro anos escrevi cerca de 1.500 páginas de romances e outras tantas de textos dispersos. Ou seja, profissionalizei-me, embora não ganhe um tostão com a actividade. Provavelmente, não ganharei um tostão tão cedo e, quando ganhar, serão meia-dúzia de tostões, mas podem estar certos de que farei tudo para contrariar o marasmo em que se encontra o país e, particularmente, a literatura. Não aceito o discurso miserabilista, até porque sinto que não se faz o suficiente de parte a parte. Os "actores" não se ouvem uns aos outros e, embora haja muito boa gente no meio, há também, sim senhor, uma grande tendência para o autismo em todos os sectores. E não quero perder os meus defeitos, as tais buscas pela bondade e pela autenticidade, nem que tenha de pagar um preço por isso.

O texto da minha editora são as minhas pancadas de moliére.
Neste momento me recolho em humildade gratidão, e agradeço a todos os que lêem.
Podem esperar que não me cale nos próximos tempos.
E algum dia me calei?

Pedro Guilherme-Moreira 2011
link do texto:
http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/58339.html

PS: quem for amiguinho, tranca já duas datas de lançamento. 2 de Junho em Lisboa, fim da tarde, e 10 de Julho no Porto, meio da tarde. Depois são relevados os locais.

8 comentários:

Beatrix Kiddo disse...

:)

10 de Julho lá estarei

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Que bom, BK!:) Obrigado.

Anónimo disse...

lapsus teclandi: revelados e não relevados ;)

Lá me terás. Mas se não estiver, posso pedir um autógrafo no meu exemplar, em troca de um café?

Senhor da Pedra ou Lavadores?

Um abraço fortíssimo,

Cristina Santos

Cristina Torrão disse...

Parabéns!
Eu li o post da MRP, em que foste mencionado, e fiquei agradavelmente surpreendida. Há bastante tempo que não aparecia por aqui, mas apercebi-me de que tens publicado textos a uma velocidade impressionante.

Sei bem o que é escrever milhares de páginas e não ganhar nada com isso. Fi-lo durante mais de sete anos. E hoje, que já editei, pouco ganho. Mas também não é isso que me impedirá de escrever ;)

Desejo-te muito sucesso :)

Maninha disse...

E a minha data? Vens cá? Vem cá :)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Cristina, sabes bem que podemos tomar todos os cafés do mundo. Mas os meus lançamentos - e é essa a comparação que vou fazer nos convites - vão ser como velórios, funerais ou casamentos. É para ir. Não há desculpas nem confortos:). São 35 anos de paciente a perspectivar o momento:).

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Cristina T. Maninha, eu gostava muito, porque sou dos que sinto que devo isso aos leitores. Mas tem de haver dinheiro, e eu não o tenho. Só algum sucesso inicial o fará aparecer. Aqui entramos na mistura entre essência e aparência, fundamental à sobrevivência de um livro. Haja boa aparência e comunicação, e de certeza que vou aos Açores:):

Anónimo disse...

Prontos!
Acuso a recepção da notificação de Vª Ex.a.
Fico a aguardar a relevação.

Cristina S.