2011-04-29

Casamento (ir)real

Catherine era muito mais gira e jeitosa nos tempos de universidade. Emagreceu até ao ponto Barbie e agora é perfeita: é que a perfeição, em televisão, tem de ser sempre xis menos sete (ou é catorze?) quilos, se é para fotografia tem de haver linhas fortes, nem que sejam a fealdade e os ossos sem carne, se é para passar roupas o corpo tem de virar cabide. Catherine ainda tem de ser mais do que isso: tem de ser princesa, e ainda por cima uma princesa inglesa, e por isso tem de ser ela menos sete dela. Se observarem atentamente os gestos da realeza, reparam na sabedoria da contenção. Os gestos são redondos e incompletos - deixam sempre o final ao povo. O sorriso é pela metade, ou, se for aberto, é breve. Os olhares que seguiram a noiva foram todos contidos e limitados no tempo: não mais de dez segundos a fixá-la, e a cara voltava-se para a frente. Isto é pura arte. Arte que emociona (e muitos não chegam a perceber porque é que se emocionam - não é por quererem estar lá, garanto). A maior arte é assim, incompleta, contida, irreal e visceral como a essência (porque o âmago não se desenha nem se explica). Se defendi uma ampla cobertura da cerimónia, essa era a razão. O brilho de uma arte maior - e nada frívola, antes violenta, contundente - dado a quem passa vidas sem o receber. Tirem-nos as monarquias, se quiserem, mas não nos tirem os príncipes e as princesas (por mais que os príncipes das Repúblicas percam esse carácter meticuloso da arte de se moldar à sabedoria de séculos - sabedoria que nasceu sempre no povo - também chamado de Deus -, não nos reis).
E se os invejam, estejam mais atentos: observem atentamente os corpos dos reis e das rainhas, dos príncipes e das princesas, reparem no pendor do rosto, na abstracção da expressão, e de como há muito eles deixaram de ser humanos. Estavam dispostos a abdicar de vocês próprios?

PG-M 2011

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