2011-04-26

Angels flying too close to the ground

Já sabem que escrevo numa mesa a dar para o mar, embora, por sinal, seja a mesa menos cobiçada deste lugar. A verdade é que o mar está aqui em baixo, aos pés, tempesteie ou estie. Hoje está sol, e entre mim e o mar sentaram-se cerca de uma dúzia de pessoas que dizem diminuídas ou com problemas mentais. Viemos todos ao mesmo tempo: eles saíram de uma carrinha e eu do meu carro. Eu vim à frente e eles atrás, com os seus monitores. Estiveram ali na esplanada cerca de uma hora. Nem por uma vez olharam para o mar ou para a praia. A maioria esteve imóvel, calada, a olhar para um ponto fixo afastado apenas alguns centímetros da cara. Metade deles balanceava o corpo para a frente e para trás, um batia palmas e ria-se de quinze em quinze minutos (precisamente), outro começou calado e sem sinais de nada que lhe diminuísse o entendimento, sorrindo primeiro, rindo-se depois, apontando o dedo aos que se balanceavam mais vigorosamente. Uma rapariga estava mais agitada, e a monitora falou-lhe com dureza: "Olha para o mar! Olha para o mar!" Mas eles nunca olharam para o mar. Conheço este grupo de outros encontros (já aqui relatei a forma como um deles, o Pedrinho, passando por mim no passadiço que nos permite passear praias fora, me cumprimentou e emocionou), e sei que a ideia de mar, de praia e até de liberdade, é importante para eles. Como são as pessoas. Eles não olham nem para o mar nem para as pessoas, mas sabem que estão lá e acalmam. A rapariga que estava mais agitada, a única que nesta hora se levantou para vir, acompanhada, à casa de banho, também acalmou, mas eu não. Por trás da expressão que traduz apenas um corpo consumido pela impotência, era bonita, tinha uns olhos grandes, e, no meio daquele grupo aparentemente inerte, era a mais inconformada. Sempre que tenho oportunidade de me deter perante esta pessoas superiores (e não esqueço estes monitores que não os deixam encerrados entre quatro paredes, e a sua infinita paciência e carinho), percebo, sem me ser explicado, o melhor de nós. Tal como as crianças - e alguns animais - são para aqueles, como nós, a quem nada é perdoado, um modelo de humildade e pureza primordial. Inspiram sempre o melhor de mim e nenhuma frase o traduz melhor do que esta: "Angels flying too close to the ground". Willie Nelson, o palco é teu:


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