2011-03-22

Perspectiva

Vomito "crise", que é a pequena histórica politiqueira e acrítica histeria mediática. Em 1983 fomos pobres e felizes com a inflacção a 30%, juros a 25% e o FMI a entrar. Passeámos, fizemos praia, vimos o Verano Azul (e outras séries), eu dei uns beijitos, acampei, ouvi boa música, as carpintarias continuaram a fazer móveis e as gelatarias a vender gelados. Somos nós, que trabalhamos, não eles, a fazer o país, pessoal!
E penso nos meus pais, não em mim. De como não eram ricos e tocavam a vida para a frente, passeavam connosco, deixavam que jogássemos futebol na rua. E os nossos filhos não estão preocupados e deprimidos? Estão. Vá que eu, a partir das oito e dez, mal passam os títulos, mudo para a Fox e para a Sic Radical. Ao almoço, a formação política é feita com o American Dad. Tenho de o proteger.
Os líderes partidários agora reagem em directo e segundos depois, o que já nem política é. São palhaços no infantário. Os media acham que estes tipos são importantes e mostram-nos a toda a hora e todos ao mesmo tempo: basta ser líder partidário e treinador de futebol para tomar de assalto os noticiários da oito,
 O autismo político-mediático não tem sequer noção de que - aposto eu - daqui a 30 anos nada disto vai estar nos livros de história, e dificilmente será dado nas universidades. Eu acabei o curso em 1995 e ninguém falou de 1983 em Economia Política. Mesmo dada por um comunista. E falávamos do Jonathan Swift, o que escreveu o "Gulliver...", e da sua teoria do canibalismo de bebés e de como isso podia salvar a economia. Agora, estes merdas, estes donos de umbigos gigantescos, estes núncios que falam para se ouvir a si próprios não tenho nem devo ouvir, e devo dizer ao meu filho que deve ter raiva de quem ouve.:)
Não é mera teoria da conspiração: estive lá, vi, e não quero nada com essa gente. Estaria melhor em Wisteria Lane com o lar de violadores e criminosos que o Paul Young queria construir.
E depois, as semanas que andei nos corredores de terminais em Outubro, a morte do Ilídio no fim do mês, da avó Júlia em Novembro, do Carlos Pinto Coelho em Dezembro, reforçaram a minha ideia, não de que a vida tem outra perspectiva perante a dor e as mortes dolorosas, mas de que o meu país é feito desta boa gente, não da outra, e de que eu não posso perder tempo: tenho de os imitar, porque fica muito espaço sem três bons monstros numa pequena vidinha, como é a minha. Perder tempo com medíocres (se me disserem um que não é, pago um jantar)?
E então a geração de jovens que foi para a rua protestar, vivendo num dos mais pobres países do velho continente, consegue ser a que mais carros novos compra na Europa? O povo pergunta, claro, "onde é que está a crise"? 
Quem é do Porto sabe que nós, aqui no norte, já sentimos a crise há muito. Mas eis o grande exemplo: o empreendedorismo dos jovens revitalizou a baixa de uma forma brutal. E fomos nós. Nenhum comerciante da zona das "galerias", e quarteirões circundantes, se queixa. E nenhuma instituição esclorosada meteu o bedelho.
Sabem, numa perspectiva ampla e histórica, o que aconteceu aos países que sofreram a Grande Depressão nos anos vinte do século passado? Continuaram o seu percurso de crescimento. Confiram o vídeo em rodapé, por obséquio, e tirem mais algumas conclusões lúcidas, porque estar atento nem sequer é muito difícil.
E, para acabar esta ofensiva, vai um sorriso? Fecho com uma cena de "Yes Prime Minister", tão válida hoje como há vinte e cinco anos. 
Tal como "As Farpas", do Eça e do Ramalho, o "Yes Minister" e outras ofensivas intemporais, os merdas andam por aqui há séculos, e a substância da resiliência e da lucidez sempre foi a mesma. E está sempre actual, com uma excepção: os merdas agora monopolizam os ecrãs e não há espaço para a crítica criativa e inteligente. Resta-nos "Os Simpsons" e "American Dad".
"- It's up to you, Bernard. What do you want? (Sir Humphrey, chefe de gabinte do PM).
- I want to have a clear conscience. (Bernard, secretário particular do PM)
(pausa, e Sir Humphrey comenta, pausadamente e com ironia:)
- When did you acquire this taste for luxuries?





fonte da foto

Sem comentários: