2011-03-01

A paragem do Inverno

Hoje o Inverno parou.
Não acabou, parou. Passam-se anos sem que isto aconteça. Hoje acontece. Há uma brisa morna de Sul, uma brisa muito suave que mal se sente. Se lhe deres as tuas costas, nada. O ar está quieto, respira-se maravilhosamente bem e não agride. Nada te agride. Não há frio nem calor, não está Sol nem noite. O céu está uniformemente nublado, sem matizes. É um só cinzento, um cinzento que não te deprime porque o Inverno parou. Não. Não lembra o Verão, sequer a Primavera ou o Outono, não há cheiros roubados a outras estações. Simplesmente parou.
É tão difícil assim conceber que os elementos possam suspender-se alguns minutos para que possamos alcançar um novo equilíbrio?
Não, nem sequer querias estar no conforto do teu Hotel de Belle Époque, aquecido nas galerias que se debruçam sobre o salão de baile, hoje sala de jantar, trabalhando na tua complexa recensão sob o brilho lúteo do lustre arte nova, já me disseste muita vezes que quando entras no teu Hotel queres que chova e faça frio lá fora, a mesma coisa que nas noites que antecedem as manhãs em que não tens de te levantar cedo, queres esse contraste para buscares a perfeição da protecção.
Para te sentires frágil sem disfarces ou defesas.
Não. O Inverno parou mesmo. Não é preciso abrigo ou plano de fuga. Este é o momento de sair à rua e começar de novo. Há três assim na vida. O nascimento, a morte.
As paragens do Inverno.

Pedro Guilherme-Moreira 2008

4 comentários:

Epifânia disse...

O Poeta a dar que pensar e agir. Muito.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

:) são coisa que aparecem

Epifânia disse...

Que continues sempre a deitar-lhes assim a mão! :)

Epifânia disse...

Que saibas sempre deitar-lhes a mão