2011-03-14

Os populistas, os fundistas e os autênticos

Eu nunca tive o que quis e sempre fui precário: sou feliz e luto, só isso.
Uma massa de gente arrebatada quis forçar-me a mão para que registasse na minha agenda o dia 12 de Março de 2011 como um dia histórico, assim mesmo, por arrebatamento, sem qualquer hesitação. Registar a História no próprio dia é uma inovação da era da comunicação imediata em que não se espera por nada nem ninguém. Eu sou um tipo de arrebatamentos, sim, mas não cometo a insensatez de os impor a todo um país, ou até ao mundo. Os meus arrebatamentos são partilhados com amigos e "amigos", mais nada. Fico seriamente impressionado quando vejo na cara dos outros a vontade de nos correr à estalada se não lhes fazemos a vontade. Os olhares de lado quando querem aplaudir de pé e nós não nos levantamos. Não foi há muito tempo que vi um texto parvo sobre novas tecnologias e comunicação, lido numa certa conferência, ser aplaudido de pé. Para tal, basta escrever, e depois ler, algo como isto: "Com as tecnologias de hoje, já ninguém se olha nos olhos, já ninguém escreve uma carta." Explosão de aplausos. Isto é mediocridade. O contrário da entrevista do George Steiner à LER 100, que me arrebatou, sim, mas que eu contive nos meus domínios: e, reparem, nem sequer concordo com tudo, tal como não concordo com muitas coisas que escreveu o Harold Bloom sobre génio literário, porque quem me conhece sabe muito bem o que penso dos génios em literatura, sobre a forma como nos sentamos a olhar para ontem, de costas para esta mesma plateia do amanhã, sem lhes dar atenção (os mesmos que ontem aplaudiram os jovens que ignoraram a vida toda andam a citar Pessoa há cinco anos, ininterruptamente). No entanto, é imperioso que me renda à inteligência e cultura de personagens ímpares, grandes, como Steiner e Bloom. Concordar ou discordar não está em causa entre pessoas de boa fé. Uma boa ideia, bem exposta, inteligente, mesmo que oposta às nossas, é estimulante. Prefiro ouvir o resto da vida pessoas sábias dizendo sempre o oposto do que eu penso, a meninos armados em importantes e "cools" a desfiar clichés que, por acaso, estão de acordo com as minhas ideias. No caso das novas tecnologias e da comunicação, já entedia ouvir os popularuchos com este discurso estafado de que já nãos nos olhamos nos olhos. Claro que esse pode ser um problema, mas o que fazer ou não dos recursos depende das pessoas. Os que se deixam afogar pelas tecnologias são os mesmos, ou filhos deles, que se deixaram engolir por outros recursos alienantes no passado. Qualquer pessoa sensata sabe que tem de manter um permanente posicionamento crítico sobre tudo o que a vida lhe dá: manter-se atento e importar-se com os outros (já nem digo ser benevolente ou bondoso) e cumprir o desígnio da filosofia do século XXI, que já não é a "verdade" (que é tão impossível quanto a felicidade, mas cuja busca fará sempre o Homem), mas a "autenticidade".
Mencionei aí em cima o tédio, e aqui encaixa a citação que Steiner faz: LA BARBARIE PLUTÔT QUE L'ENNUI» - Théophile Gautier, na mesma "LER" 100, algo como "Antes a barbárie que o enfado." - não há nada mais perigoso para a civilização do que o tédio. E as novas gerações andam entediadas, pensam que não há nada para fazer quando estão de corpo nu, sem extensões tecnológicas nos dedos. Foram para a rua dizer coisas importantes, mas no dia seguinte voltaram às suas vidas. E a janela mediática fecha-se. Quem quer fazer o bem, normalmente, trabalha uma vida inteira sem procurar reconhecimento de mérito. Ontem ouvi, isso ouvi, os que realmente se esforçam e fazem, muitas vezes, o que não querem para sobreviver, dizer que também queriam o que se pede nas ruas. Nem toda a gente pode ter o que quer, mas deve lutar todos os dias por isso.Claro que o caminho  das mensagens simples e populistas, em vez da serenidade e humildade dos corredores de fundo, há-de sempre ser vencedor. Mas, quanto a mim, prefiro que se importem realmente comigo (e não que "finjam" que se importam - o que é fácil, nos dias que correm) e me mandem uma SMS com um poema escrito na hora do que um "LuvU pk es dfrnt d tdos" escrito numa carta com selo e envelope.

2 comentários:

Carlos disse...

A qualidade da sua escrita inibe qualquer comentário. Mas que esse caráter inibitório persista. Acompanho, reflexivo, seus escritos.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Meu caro Carlos, as suas imerecidas e gentis palavras são melhor do que um prémio imerecido ou loas vazias. No fundo, quem escreve aspira a essa perfeição, e ela conforta os leitores. Mas é má para a discussão:). Geri fóruns juridicos durante anos, e lembro-me de explicar a muitos bons "oradores", que não tinham reacção aos seus escritos, que isso pode ser por estarem demasiado bem escritos:). Mas foi um actriz que disse (Dietrich? Garbo?) que os que não têm o que criticar provocam o tédio:). Eu tenho sempre receio de me incomodar com a disscussão, mas ele é útil e essencial.E sei que sou muito mais ignorante que os verdadeiros sábios, dos quais careço como do pão para a boca. Abraço!