2011-03-24

Solomon

Há quinze anos deixei de frequentar o café dos "Emigras", como nós lhe chamávamos.
Moro à beira da praia, e fugia dos cafés de areia, principalmente no Verão, quando a praia é o único lugar do mundo para os portugueses que não podem. Não fugia dos portugueses que não podem, apenas do desassossego que eles podem.
Ao tempo, eu e a minha namorada, hoje mulher, a mulher da minha vida, acarinhávamos a visão de um casal de velhinhos que nos parecia o nosso futuro. Ela pequenina, ele muito alto, cabelos brancos, totalmente brancos, ambos a rondar os noventa anos. Conduziam um carocha e a sua rotina corajosa inspirava-nos. Davam a mão, mas não ostensivamente, que os bons velhinhos conhecem a virtude da contenção. Eu e a mulher da minha vida decidimos ser assim, um dia, se o comandante nos deixar chegar longe.
Deixámos de frequentar o café quando as praias de Gaia se tornaram as melhores, e procurámos o nosso posto de observação do mar, mesmo com desassossego.
Não foram poucas as vezes que, nestes quinze anos, falámos deles. E prometemos ir ao café saber deles. Fomos adiando. Hoje desviei-me do caminho e fui lá. Quando abordei o dono do café, não estive com rodeios: lembra-se do casal de velhinhos...? "Lembro", disse ele, "era o Sr Guedes e a esposa. Já morreram há muitos anos! Moravam ali atrás..." Eu quis saber quem tinha ido primeiro. "Foi ele". E ela? "Ela foi pouco depois". Claro, pensei. Claro que foi. Saí triste. Queria ter-lhes dito o que aqui escrevi. Mesmo que passemos por loucos, serão as convenções sociais de pudor mais importantes do que a entrega de certos afectos? Quantos de nós verberariam, no fim da vida, um jovem casal que viesse ter connosco dizer-nos o quanto os inspirávamos? O certo é que não o fazemos. A minha tristeza nem vem daí: vem dos dias que ela passou sem ele. Cada um mais terrível do que o seguinte. 

Em Great Neck, subúrbio rico Nova Iorque, vive outro casal de velhinhos de noventa anos. Ele é tão alto como era o Sr Guedes, ela não é tão baixa como era a velhinha do Sr Guedes. São o Solomon e a Ida. Cruzei-me com eles quando cursava Direito em Coimbra, andariam eles pelos setenta, e ficámos amigos. Trocámos correspondência durante alguns anos, cartas escritas à mão. Ele, advogado como eu, mandou-me plantas fantásticas da cidade, que me foram levadas por um rapaz que mas há-de devolver. Depois licenciei-me, apareceu a internet, e deixámos de escrever. Há cerca de três anos, liguei para Nova Iorque cheio de medo (de que também eles tivessem partido), e atendeu-me a Ida. Não ouvia muito bem, mas foi o suficiente para dizer que estavam bem e me dar o email deles e me pedir desculpa por ter de desligar. Aos noventa, disse-me ela:
- My dear, we have to go and do some gymnastics.
Escrevi-lhes a dizer as saudades que sentia deles, e a perguntar se se importavam que usasse os seus nome e o lugar onde moravam como personagens de um livro meu. Não as suas vidas, mas apenas os nomes e o lugar, porque queria deixar-lhes esse mimo pela eternidade.
Nunca me responderam ao mail.
Hoje estarão a caminho dos noventa e cinco. Torno a ter medo, mas vou ligar de novo hoje à tarde. Antes de saber deles, a imortalidade está garantida: Solomon, Ida e Great Neck entram no livro e as letras não morrem. Podem passar a ter outra função, podem juntar-se noutro sentido, mas não morrem.

Pedro Guilherme-Moreira 2011

fonte da foto

PS: sempre liguei na tarde deste dia em que publiquei a crónica. De Nova Iorque, atende-me uma mulher:
- Is this Sololom and Ida's home?
- Who's this?
- Pedro, from Portugal. Remember me? I caled three years ago to see how you were doing...
- Yes, I remember.
- Is this Ida?
- Yes.
- You never answered my email...
- Sorry about that, Pedro.
- So, Solomon...
- We don't live here anymore.
- You don't...?
- He died.
- Oh, that's what I was afraid of...
- He died last year...
(sinto que ela está a chorar)
- I'm not available to talk.
(desliga)
Acima de tudo, a tristeza. Sempre tive medo deste momento. Trocámos cartas maravilhosas, eu e o Solomon, sobre a vida, sobre o Direito. Foi uma inspiração para mim, ainda como estudante. Passámos dez anos a escrever-nos. Este fica para mim como o dia da morte do Solomon. Era um homem bonito, de 1,90m, exerceu advocacia em Nova Iorque durante mais de sessenta anos. Mais uma vez a convicção: não devemos adiar os afectos. Talvez um dia ainda possa ler à Ida as palavras que lhes dediquei - aliás, estiveram para sair do livro, em revisão editorial, mas esta é a razão pela qual me agarrei a elas. Oh, Ida, my Ida. :((((  )

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