2011-03-11

A moldura da essência (muito mais do que Rango ou o melhor western do ano ou o espírito do oeste)

Sim, todos sabemos que a maioria dos adultos que forem ver Rango o farão arrastados pelos seus filhos. Eu fui, e costumo estar atento ao cinema e, particularmente, à animação de excelência, mas não ia preparado para o que vi. Para já, não me lembro de muitos filmes de animação com duas horas, o que seguramente nos dá dez anos entre a ideia inicial e o resultado final (há informações dispersas sobre um argumento - que é mesmo muito bom, superiormente escrito - que terá demorado, só ele, cinco a ser escrito). O que se sabe é que é a primeira animação da Industrial Light and Magic (ILM), que nos habituou ao melhor (Star Wars, Indiana Jones, Schindler's List, Pirata das Caraíbas, Magnolia, etc, etc), e que tem Gore Verbinsky como realizador.
Em poucas palavras, e tudo o que vamos dizer não se refere à subclasse da animação, mas ao cinema em geral, é um grande, grande filme. Usando mais algumas, é um dos três melhores westerns dos últimos vinte anos (ao nível de Unforgiven). É provavelmente o melhor filme de animação por computador de todos os tempos, por mais que nos custe colocar Toy Story 3 em segundo lugar, e lembrando que "O Túmulo dos Pirilampos" é animação convencional (e não poderia estar em causa). Tem as melhores figuras humanas e os melhores cenários: até assusta o realismo da pele, as texturas das paisagens. A banda sonora é excelente. É o filme de animação que mais atenção e trabalho deu ao detalhe e à história. Só uma personagem é "plana", e mesmo assim fortíssima: Rattlesnake Jake. Todos os outros são uma delícia de singularidade. A sensação de abjecção que podemos ter ao visionar o trailer, por causa da grande diversidade de "bichos", perde-se logo ao início. Aquele camaleão somo nós, aquela lagarta é a nossa miúda, aquele presidente o nosso presidente, aquele coro trágico a nossa subitl e cómica ironia (o saber rir de si próprio), aqueles vilões os nossos vilões, aquela vila a nossa vila, aquela vida a nossa vida. E o trabalho da equipa de dobragem portuguesa é, uma vez mais, superlativo. A escolha de sotaques ou tons idiosincráticos um espéctáculo dentro de outro. Como nortenho, não posso deixar de sentir a alma quente pelos diálogos dos "maus" nortenhos ("o xerife é um gajo fixe, deu-nos uma autorização de prospeçomnhe; o quê, trouxesto o garrafomnhe? és muito toninho..."). É fino. Tem classe. Emociona. Faz vibrar tanto que a única crítica que lhe foi apontada, em todo o mundo, é não ser um filme para crianças. Pois não é, não. Mas não lhes faz mal nenhum ver um bom filme, até porque, como sempre, só um insuportável puritano pode ter problemas com a linguagem "gráfica": a cena do "filho daaaaaa" é de rir e chorar por mais. Os miúdos sabem as asneiras para não as dizer. A Nicklodeon estreia-se em força, a ILM vai levar o caminho da (ou superar a) Pixar, e nós deixamo-vos com o simbolismo de Rango, quando faz a moldura de si: aquele quadrado, a essência, fica-nos na alma, sai connosco e acompanha-nos. Já mencionei essa belíssima imagem meia-dúzia de vezes desde que vi o filme, há dois dias. O que pode querer isto dizer, num mundo vazio de referências?




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