2011-03-27

A casa no topo do mundo

Lembras-te dos violinos
no campo?
E do chicote a rasgar
para o Caleb tocar


e o Elijah dançar?


Lembras-te das filas
a rir
para não chorar?
E da fome em Magadan?
E dos ossos em Dachau?
E do tremoço em Treblinka
com o som dentro das cascas?
Lembras-te da Villa
Grimaldi,
da dor do sono em Peniche

e do sol no Tarrafal?

Lembras-te do silêncio
em Guantánamo
e do circo em Abu Dhabi?
Lembras-te dos véus em Cabul,
das grutas em Tora Bora?
Lembras-te das Coreias,
de África, dos elefantes,
da travessia dos búfalos,
do mar de Bering, da neve,
da secura do deserto
das lágrimas em Darfur,
de um Setembro 
em Nova Iorque?
Lembras-te da nossa
casa,
de eu te acertar no focinho
quando te armaste em mulher?
Lembras-te do malmequer
que ofereci à alvorada
ao cortejo que passasse
à beleza que me amasse,
descansa que não é nada
o sangue e a face inchada
na tua ferida.
Lembra-te, querida,
do dia do casamento
vais de branco
sem lamento
não de luto
nem de luta
nem de puta.
Lembras-te? Tudo flui
no cone do teu sufoco,
meu estupor.


Ainda te queixas da vida?
Queres mais amor?


Os miúdos estão na rua
com cartazes
tu na sala
com tenazes,
Queimas os livros no pátio
logo pela manhã
quero essa jóia vendida


Está bem, querida?


Que mundo tão importante
Que sageza tão distante
e tu, armada em forte,
queixas-te da tua sorte


Mas achas que tens idade
de liberdade?


(e a mulher tomou para si
a arma do parapeito
e disparou sem demora
e a mulher
deu o mundo por desfeito
o mundo com ele ao centro
o mundo que cai de fora


para dentro
ao fundo
da casa no topo
do Mundo)

Pedro Guilherme-Moreira 2011

fonte da foto

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