2011-02-04

Um ano mais para todos nós (e Lesley Manville)

Esta é a obra-prima de Mike Leigh. A dias de fazer 68 anos, chegou lá.
Muitos portugueses vão lembrar-se de Manoel de Oliveira, por causa do ritmo e das tomadas lânguidas de imagem. E alguns, ao lerem isto, vão fugir. Mas contem-me lá como é que se come uma coisa de que se gosta mesmo muito - e às vezes até é bela à vista. Eu digo: devagar, muito devagar.
Não sei se por cá temos actores com este comprimento cinematográfico. Jim Broadbent nem precisa de fazer muito, tal o prestígio e excelência, mas depois temos todos os outros, num excelente casting feito por Nina Gold, e temos Lesley Manville, a atormentada Mary que um jovem casal de setenta e cinco anos dizia, atrás de mim, "ser a melhor artista" do filme e estar a "fazer um grande papel". Curiosa a perspectiva que tive (nos meus ouvidos) de quem raramente vejo nas salas de cinema, eu que lá vou todas as semanas, uma a duas vezes, há vinte e seis anos: começou por me irritar (ao princípio quase se pegavam ao estalo, de tal forma ela reclamava da loucura do marido, que em vez de ficar em casa a trouxera para aquela sala estranha, eles que já não vinham ao cinema há vinte anos - "É de qualidade?" - perguntava ela, "Ééééé´!" - respondia ele, impaciente), mas acabou por me deliciar e me dar a justa medida do grande filme que vi, prendendo a atenção de tão inquietos jovens. Mas Lesley Manville, meus senhores, é um filme à parte, sem qualquer under ou overacting, retrato perfeito de uma lindíssima mulher de cinquenta anos que passou ao lado da felicidade e agora debica todos os restos de ternura sem uma particular exigência, fora o (para ela) repugnante Ken (Peter Wight). Lesley está nomeada para o BAFTA e para o BIFA de melhor actriz secundária (a ver se ganha), e o senhor Óscar devia estar distraído (nomeação apenas para o melhor argumento, também de Mike Leigh). Já a Chicago Film Critics Association e a National Board of Review (EUA) tiveram a coragem necessária para a nomear para os seus prémios pelo que ela é: melhor actriz principal (qual secundária?), e a London Critics Circle Film ainda fez melhor: nomeou-a para melhor actriz britânica do ano. A San Diego Film Critics Society Awards fez uma coisa ainda mais original: nomeou-a para melhor secundária e os três (Jim, Ruth Sheen e Lesley) para melhor "ensemble performance". Vai ser um ano em cheio - e como toda a justiça - para Lesley Manville. Só por ela, creiam, valia a pena, mas é, todo ele, um filme superior, de rir e chorar por mais, literalmente, e que nos vai ficar na pele da próxima vez que olharmos para os nossos companheiros. Tratem-se bem. A bondade não custa assim tanto. E sim, sai-se com o filme da sala. Para a vida.

2 comentários:

Alexandra A. disse...

Interpretações incríveis...todas e cada uma. Inesquecíveis estas expressões e estes olhares. Que grandes actores! Lesley Manville, então, é impressionante...

Pedro Guilherme-Moreira disse...

É mesmo, Alexandra!