2011-02-07

Tenho finalmente 90 anos

(...) Tenho finalmente 90 anos e quero olhar para a mulher que passa, o que de algum modo me vedaram há coisa de vinte, quando fui despojado de todos os meus direitos cívicos, não pelo governo, mas pelo olhar dos meus iguais; tenho finalmente noventa anos e doravante serei visitado pelos que querem fumar um bocado de mim. Eu, que estava morto por eles. Acendo a cigarrilha e já não me batem. Filhos de uma puta. Agora é mais ou menos entre os setenta e cinco e os noventa: penduram-te na secção do refugo, desejam que morras, que vá depressa, coitadinho, que não sofra. Mas quando passas os noventa é uma festa. Passas a referência humana de uma aldeia de merda, e em breve do mundo, assim passes os 100. Mas eu ainda só tenho 90 e queria curtir este estado de liberdade absoluta. Filhos de uma puta. Já fui o galã na estação de comboios, e agora dói-me a cabeça só de olhar para os carris e os ouvidos só de ouvir os megafones da instalação sonora. Já fui o galã da estação de comboios, quando deixava a miúda suspensa no ar até tudo se desvanecer, as pessoas e as marcas de mais uma passagem, mais uma viagem. Agora olho azedo do alto dos meus noventa e estou cheio de cicuta. Filhos de uma puta. (...)"

Pedro Guilherme-Moreira

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