2011-02-16

O logro de Proust

Não é por fazermos anos no mesmo dia.
(Ele é precisamente 98 anos mais velho do que eu)
É por não haver nada se absoluto ou insofismável em Proust.
 Apesar de ter sido um rapaz doente, escreveu que se fartou, como só pode escrever que se farta quem parte da obsessão pelo enfoque de Bergson sobre os dados imediatos da consciência e da memória. Pudera. Henri Bergson era amigo, e safou-o do embaraço das primeiras traduções de Ruskin, as tais que levaram Proust a dizer: "Eu não sei inglês, sei Ruskin". E foi o próprio quem chamou à sua "Recherche" uma "catedral gótica". Se chamassem esse nome feio a algo meu, eu baixava os olhos com desconsolo. Mas, provavelmente, a sua era uma belíssima catedral gótica. Se não me engano (corrijam-me por favor), Proust foi profusamente "editado", inicialmente, por Charles Colin para a Grasset. Ele próprio diz, ao que li, ter corrigido as primeiras provas de tal forma que teve de colar papéis por cima das ditas. Portanto, houve trabalho de edição em 1912/1913. Houvera sido recusado em três editoras antes de Grasset o aceitar. Certamente emendou, cortou, depurou antes da aceitação de Grasset. E se Proust se apresentasse hoje a um editor qualificado? Careceriam os seus livros de um trabalho de edição? Estou em crer que sim. A verdade é que o editor dos últimos volumes da "Recherche" acabou por ser o próprio Proust, mas não Marcel. Foi o irmão e médico Robert, uma vez morto o escritor, e de quem Marcel, aparentemente, gostava muito (nas cartas, tratou-de "ó irmão mais querido que a claridade do dia" para cima). Não sei se fez um bom trabalho, nem se era menos psicótico, frágil, mimalho, ou igualmente brilhante.

O logro de Proust prende-se com a dimensão e profundidade da sua obra.
Como é, realmente, a "catedral gótica" que o autor anunciou, é preciso um esforço substancial para avançar na "Recherche". Ora, como é pouco frequente que os intelectuais não sejam mentirosos (todos somos), e a impaciência de estar qualificado para debater Proust é grande, a maioria lê, se tanto, cem páginas do primeiro volume, "Do lado de Swann", e todos falam dos dois episódios que se destacam nessa parte: o beijo da mãe e as madalenas. Mas era bom dizer, por uma vez, a verdade. E ir um bocado mais longe.
Os tempos superficiais que vivemos fazem-me temer que nunca mais seja feito um trabalho que eu reputaria de estimulante: que um bom editor profissional, necessariamente especializado em Proust, pegasse na "Recherche " e a editasse como se tivesse Marcel perante si, com um olhar inquisidor. Não é sequer uma sugestão. É uma ideia, um devaneio, um "what if" que nunca poderá estar a salvo, como é óbvio, dos que sacralizam o romancista francês, que eu sempre vi como um desafio, como um ginásio da memória e do intelecto, porque sempre desconfiei das sentenças erga omnes. Sobre Proust, digo quase sempre o mesmo -  não me dá prazer: dá-me rasgo.

Por isso, adoraria que um dia fosse feita uma edição da "Recherche" em que as digressões psicológicas mais exageradas - e ele tem algumas que roçam o ridículo (ridículo que ele, aliás, assumia e, em parte, representava) passassem a notas de rodapé, apêndices ou remissões, e nos fosse oferecido um "Em busca do tempo perdido" (é a este romance em sete volumes que me refiro quando escrevo "Recherche") depurado, como ele não era. Isso permitiria que muito mais gente entrasse por Proust adentro, e isso ele merecia, inclusive buscando e comparando essa "edição especial" (depurada) com as edições originais. Mas de edições de Proust, afinal, o que fomos tendo ao longo dos tempos foram "trabalhos" acríticos traduzidos de traduções e com cada vez menos qualidade, o que o superlativo trabalho de Pedro Tamen, em Portugal resolveu - na parte da qualidade, não da abordagem crítica.

Proust é, pois, um logro porque poucos lhe dedicam uma verdadeira atenção, poucos o questionam, poucos dialogam com ele. Talvez o homem frágil, sensível e inseguro que ele foi desejasse esta imortalidade, este unanimismo, mas os tempos não estão para que isso se mantenha. Se não temos novas abordagens já, Proust morrerá de vez, na cadência frívola dos nossos dias.

E, agora que encontrei novos motivos para o ler e reler (encontro sempre) - precisamente ele ter sido contemporâneo do meu bisavô escultor em Paris -  perderei um dos meus maiores divertimentos a cada dia 10 de Julho, o dia do nosso aniversário comum - o presente de aniversário que eu dou ao Marcel, e ele a mim: vinte páginas de "Recherche" em que nos rimos e discutimos (e eu normalmente o insulto de forma velada, e ele fica com aquela cara de mimalho a quem o mundo sempre há-de agredir com o seu desprezo: porque um coro de loas sempre foi sinal de um incomensurável desprezo).

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