2011-02-11

O fim da infância

"(...) Foi numa dessas noites de Agosto que o meu habitual passeio pelos quarteirões próximos a fumar um cigarro partilhado com o nosso inseparável amigo me começou a decompor os encantos de menino.
As casas, as belas casas da alameda, apareceram pela primeira vez aos meus olhos como uma mera fachada cénica de realidades monstruosas a germinar por trás de um notável trabalho de carpintaria. Foi precisamente quando ia contar ao nosso inseparável amigo a minha inesperada paixão de Verão que a infância desabou.
Pedindo-lhe uma passa do Ducados que fazíamos render como se fosse produto proibido traficado por nós às oito da noite sob os candeeiros da alameda, quando os verdadeiros traficantes se dissimulavam nas dunas noite após noite,
- O maço já vai a meio.
- Por isso é que te peço passas.
- Mas não exageres.
- Tenho aqui uma merda para te contar, mas fica entre nós, tens de prometer.
- Ooh, foda-se...o que é agora?
- Tens de me prometer que não contas a ninguém.
E o amigo inseparável, com uma expressão estranhamente desconfiada que era mais um apelo desesperado do que uma defesa, um complexo sentimento de esperança entalado num trauma profundo que ela vivera algures numa rua esconsa da vizinhança, largou sobre mim:
- Não me vais dizer que és paneleiro, pois não?
Eu rugi uma gargalhada, que ele não reatou, e isso não era normal. Fiquei preocupado.
- Agora és tu que me vais dizer o que se passa. - exigi.
- Mas o que é que me ias contar, afinal?
- Não interessa. Uma paixão por uma gaja aí na praia. Não interessa! O que se passa, caralho? Que ideias são essas?

O inseparável amigo inclinou a cabeça, depois os olhos, para o chão, a sua consciência pairou sobre mim como uma nuvem cinzenta, e depois aquilo, uma coisa, não sei o quê, pareceu-me um rumor a descer a alameda pelos quintais das casas, era certamente a cortina a cair sobre o meu tempo de absoluta inocência.
- Sabes o carro que perseguia o teu irmão nas vindas da escola?
(o que eu marquei como uma presa e vigiei como um lobo dias a fio, até apanhar o gajo a tentar falar com um miúdo e ir atrás dele até desaparecer para sempre destes lados? )
- Sim, esse. Muito antes disso, tinha eu doze anos, ele parou junto ao cruzamento lá de cima para perguntar onde era a mercearia, eu tentei explicar mas ele pediu-me para entrar e mostrar, não se pode ir por esta rua?, perguntou, lembrei-me da viela que liga à alameda, sabes?, e disse que sim, mais ou menos, e ele desceu a rua larga, mas parou no ermo que lá há e começou a fazer-me festas nas pernas, a subir, e o resto imagina, se quiseres, a minha cabeça ficou confusa, pensei que ele me estava a fazer mimos como o pai de vez em quando fazia nas viagens longas, cheguei a pensar que ia dizer que era da família, depois ele mexeu-me ali e perguntou se podia ir mais longe, eu fiquei quieto, congelado...
Estávamos de pé, mas tivemos de nos sentar numa soleira. Eu embasbacado a praguejar baixinho, ele sem me conseguir enfrentar, dali via-se a saída da viela, a maldita viela, a cortina já tinha caído e as fachadas já eram cenários de madeira, a vila onde eu crescera, que era um todo etéreo, arrumado, belo, recanto pequeno-burguês à beira-mar, ruía perante os meus olhos naquele princípio de noite de Agosto, um que eu esperara igual a todos os outros. As regras ficaram suspensas e acabámos com o maço de Ducados noite dentro, eram cinco da manhã e a conversa ainda fluía, e ele perguntou, finalmente, para esquecer:
- Achas que sou paneleiro por ter gostado?
Dei-lhe uma resposta banal, sempre praguejando, como se faz para dar leveza às coisas, dei-lhe uma resposta banal e salguei-a com algum conhecimento que me viera dos livros onde buscara as manifestações homossexuais dos heterossexuais, para o inseparável amigo era obrigatório que tudo o que eu dissesse tivesse a aparência de alguma erudição, dei-lhe a resposta banal salgada por ideias dos livros e a consciência dele deixou de pairar sobre mim, e embora o caminho estivesse aberto para eu lhe falar da minha inesperada paixão de Verão, a ameaça da manhã alarmou-o e ele partiu para a casa em frente, onde morava.  (...)"
Pedro Guilherme-Moreira 2009

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