2011-02-19

O discurso do Colin e a tareia do Geoffrey (e um PS sobre o "Fighter")

Muito bem. Acabo de ver uma colecção de imagens do rei George VI de Inglaterra (já como rei e ainda como príncipe) - não poderia pronunciar-me sobre o desempenho de Colin Firth sem o fazer. Isto porquê? Porque seria um enorme erro reduzir o filme de Tom Hooper, "O Discurso do Rei", aos desempenhos. Mas é disso que aqui vamos falar, para esclarecer as coisas. Afinal, é a forma "contundente" como ele filma os seus actores, usando (e, na minha opinião, não abusando) do close-up com grandes angulares que nos atira Colin Firth e Goffrey Rush para o colo, que exalta as actuações. Posto isto, devo ser o primeiro a não ficar arrebatado com o desempenho do bondoso e inteligente e raro Colin - é bom, note-se, mas não arrebatador, e não deixa de ser algo histriónico. Poderiam rebater este argumento com a natureza do próprio filme, "suavemente" caricatural, se é possível conceber estes conceitos que adoçam o que é extremo ("algo" histriónico e "suavemente" caricatural) e dizer-me que, assim sendo, Colin está perfeito. Talvez, talvez. Mas não vamos por aí, se quisermos falar do merecimento do óscar que aí vem (seria das maiores surpresas dos últimos anos, se assim não fosse). Nunca me chocaram os óscares de carreira, as consagrações. Temos garantido, creio, e por tudo o que li do Colin, um grande discurso, um grande momento, e, até para acalmar a minha mulher (nós, homens, temos de lidar com este encantamento do Colin, e eu já só posso dizer, "mas eu ainda tenho mais 2 cm do que ele":)...de altura, seus malandros, de altura!), é mais do que justo dar o óscar ao Colin Firth. Mas, registem aí por obséquio, para mim é o papel dele em "A Single Man" ("Um homem singular" - crítica aqui) de Tom Ford, este sim, contido, complexo, quase perfeito, que o merece, e é nesse filme que vou pensar quando Colin subir ao palco do Kodak Theatre, não neste. Neste ele é bom, mas não tão bom. Quem é bom a sério é Geoffrey Rush, mais uma vez nomeado na categoria de secundário pelo papel de terapeuta da fala (e futuro amigo de uma vida) do príncipe/ rei, quando é, efectivamente, um actor principal, e que grande actor. Helena Bonham Carter também é uma fantástica Isabel, futura rainha-mãe (a mãe da actual soberana Isabel II).
E do filme, não se fala?
Fala. É um grande momento de cinema. Não liguem aos críticos que têm a cabeça mais cheia de tecnicalidades do que de emoção. É um grande filme, tem trabalhos quase exemplares na fotografia, na edição, no som, na edição de som, na direcção de actores, nos cenários, no guarda-roupa. Um filme que não tem nada de clássico. É, como se disse acima, "suavemente" caricatural, muitas vezes minimalista, com um apuro estético irrepreensível e uma composição de espaços e personagens dignos de figurar por muitos anos na nossa memória. E sai connosco da sala. É preciso dizer mais?
Sim, só mais uma coisa: o discurso histórico do rei gago, com as técnicas usadas para corrigir o defeito, as longas pausas e a forma como cada palavra parece uma vitória, tornou-o realmente majestoso e inspirador. É ver para crer.
Pedro Guilherme-Moreira 2011


PS: depois da escrita deste artigo, vi o desempenho de Christian Bale no "The fighter", e, de repente, estou preparado para um dos melhores combates dos últimos anos na categoria dos secundários (que são ambos principais, note-se). Não posso mentir: Bale é arrebatador. E Melissa Leo, meu senhores, que faz de mãe dos dois puglistas? O filme valia só por ela e Christian. E por causa de Melissa, dificilmente este é ano da nossa Amy Adams, que já vai merecendo o óscar e tem aqui o melhor papel da sua carreira. Mas com a Melissa a fazer sombra, muita sombra, não me parece.

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