2011-02-09

O dia amargo de Pedro G mais ou menos a meio da vida

Há coisa de dois dias houve uma epidemia de sorrisos, e nessa manhã Pedro G pensou, como sempre inocentemente, que o mundo viera ao seu encontro e estava mais parecido com o que sonhara desde sempre.
As palavras que a seguir vão ler não versam apenas sobre Pedro G, mas sobre todas as pessoas que, como Pedro G, acreditam nas outras ao ponto de não as enganarem, mesmo que sejam enganados por elas.
Tem um ponto prévio, contudo:
não se defenderá aqui a verdade a qualquer custo. Não se diz ao gordo que é gordo, nem ao feio que é feio. Pessoas como Pedro G tentam perceber porque é que o gordo é gordo e tentam ver o que de belo o feio tem. Mas nunca lhes dizem essas primeiras aparentes verdades.

Pessoas como Pedro G, quando agredidos, e ainda que possam reagir de forma parecida com o mal que lhes foi feito, vão sempre compreender o agressor.
Não, Pedro G não é Jesus Cristo nem se quer fazer passar por profeta. Nem ele, nem as pessoas como ele. Pedro G é apenas um homem que acredita que a discussão desassombrada e franca com o seu igual faz avançar o mundo. Quando as pessoas como Pedro G se encontram umas com as outras têm sempre um momento de espanto, após alguns minutos, ou horas, de conversa: ninguém se agitou, ninguém apontou o dedo ou julgou liminarmente. Há uma discórdia concordante.

Pedro G nasceu e teve do seu pai uma urgência: ser um menino, não acima da média, mas melhor do que todos os outros.
Pedro G, à custa de muitas horas de massacre, sabia ler aos 4.
Curiosamente, na primeira classe, Pedro G ia tão acelerado que nunca se encontrou. Mandavam-no fazer contas de dividir e ele só queria ler as frases dos livros. Esteve para reprovar, mas com o favor do professor passou para a segunda classe e mudou de escola.
Aos sete, Pedro G encontrou uma das professoras da sua vida. Aprendeu a fazer contas de dividir no primeiro dia, e pagou à professora com uma fábula em que a transformava em formiga. Ela agradeceu acusando-o de ser escritor. Ele não gostou.
Pedro G passou a ser o melhor aluno da turma, alternando com o Rui A.
No ensino secundário, esteve sempre lá por cima, alternando com o José T e outros. Ganhou os primeiros jogos florais aos 11, empatado com Paulo R, entre rapazes de 16 e 17 anos. O Paulo R ganhou os segundos jogos florais, mas o Pedro G levou o segundo e o terceiro prémios. Depois o Paulo R foi para a universidade e o Pedro G ganhou os terceiros jogos florais, finalmente só. Sempre com poesia, que nunca abandonaria.

Aos 22, já na universidade de Coimbra e com um curso de que não gostava (queria ser advogado, mas não estudando daquela forma), decidiu que, embora andasse a escrever desde os 7, não tinha prosa valorosa. Ouviu de um escritor famoso uma sentença: ninguém deve publicar antes dos 40. E acatou.
Então, no fim do curso, ganhou ganas e viu a advocacia aparecer no horizonte. No último ano, subiu a média miserável em dois valores, entrou no estágio com tudo, terminou com nota máxima e um prémio monetário pela sua intervenção na área de novas tecnologias associadas ao Direito. Foi publicado nas revistas jurídicas de referência e foi co-autor de um livro jurídico, e isso orgulhou-o muito, porque sempre soube valer muito menos do que todos os nomes que apareciam nessas revistas e livros.
Pedro G resolveu então dar tudo de si para que nenhum colega ficasse diminuído por info-exclusão. Percorreu o país a expensas próprias, apoiando colegas gratuitamente, ajudou todos os que pode, construiu, abriu e manteve um dos primeiros sítios na internet com informação jurídica gratuita, portolegal.com, que manteve sozinho e sem qualquer lucro até ao momento em que decidiu escrever e publicar romances. À margem, dedicou-se sempre a causas: a protecção dos estagiários, o direito preventivo, o poder paternal e alienação parental.
Depois dedicou-se intensivamente à escrita e à intervenção cívica em vários sectores, dedicando um olhar especial à profissão de jornalista, que considera a mais importante (e complexa) do século XXI.

Durante toda a sua vida, os movimentos de Pedro G foram sempre os mesmos: aproximar-se das pessoas com o tal sorriso que inocentemente se tentou anteontem (quando muitos os que o promoveram são o contrário na sua própria vida, a não ser que o egoísmo extremo e o convencimento vazio da própria "importância" também faça sorrir) ou estendendo uma mão para ser apertada, sem amigos, cunhas ou influências, sempre procurando ajudar, comunicar, debater, identificar os sectores em que era preciso avançar, evoluir, melhorar. E, importante, sem nunca procurar protagonismo pessoal ou reconhecimento de mérito, o que se veio a revelar, sempre, um erro. Porque o "quem é este" é hoje uma pergunta poderosa. É-se alguém depois de se ser relativamente conhecido. A partir daí, ninguém questiona a hombridade. Mas, quando não se é padre católico apostólico romano (que só por si garante alguma credibilidade), fazem-no sempre a quem teve um percurso de vida que, embora exemplar e até parcialmente sindicável, não é público. Não se verifica nem se perde tempo. Julga-se depressinha.

E todos os movimentos da vida de Pedro G terminaram da mesma forma: como quem tenta fazer o melhor - e sempre com a máxima bondade (que não é incompatível com a paixão e a frontalidade) - não suporta que o magoem, que o tentem descredibilizar ou mesmo prejudicar, seja de que forma for, a decisão é sempre o afastamento sem mais ondas. Ainda recentemente Pedro G ouviu o mesmo numa conferência TED, de um ilustre orador, como são todos os oradores TED: "o nosso mundo é medíocre porque são os medíocres que ficam para o vilipêndio. Os bons viram costas mal são acossados, porque não estão para isso. Claro que devia haver uma certa resistência, mas quem no seu devido juízo fica a ser massacrado, quando pode ir fazer o bem noutro lado?"
Talvez não haja resistência, mas há resiliência, pensa Pedro G.
A resiliência não é contemporizar com a maldade. É outra coisa.

Os que se empenham genuinamente, seja em que campo for, fazem sombra aos que realmente querem o protagonismo (mesmo que estejam, inicialmente, bem-intencionados) e são sempre acusados de egos inchados, excesso de auto-confiança, paternalismo e vitimização. Estão sempre fora do seu lugar, da coutada que os agressores vedaram para si e para os seus.

Pedro G nunca se sentiu vítima de nada, precisamente porque o último movimento de cada etapa é sempre igual: compreender o agressor. E pugnar para que, no futuro, a comunicação seja feita de outra forma, para que o agressor não convoque os seus piores instintos.

No fim, há uma coisa chamada liberdade e uma mordaça.
Muitas vezes, não há outra solução para a paz:

Pedro G amordaça-se a si próprio e vive em paz e feliz no seu mais íntimo e ínfimo reduto.
Claro que não é isso que ele ou as pessoas como ele querem para o mundo, mas no topo de cada montanha o cansaço é extremo e é preciso ganhar fôlego para a gente boa que há-de aparecer nas outras encostas.

Pedro G

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