2011-02-11

O avô, as novelas e as moscas

O jantar de fim de ano da família alargada foi em casa do meu avô materno, um comerciante de tabaco de hábitos fleumáticos e tomado da doença das telenovelas brasileiras, muito comum nos anos oitenta, e cujos sintomas eram comuns a grande parte dos portugueses, parlamentares incluídos. Qualquer mosca que atravessasse o campo de visão de um desses tele-espectadores era comprovadamente suicida, mas, como o avô, dono e senhor de uma das maiores mansões e fortunas da cidade, não executava tarefas basilares como matar moscas, ordenava às sopeiras de serviço a sua eliminação, e depois gritava-lhes para estarem quietas e caladas, e era vê-las a desenvolver apuradas técnicas para matar moscas em absoluto silêncio, até ao dia em que um dos insectos caiu em cima da careca do meu avô, ressaltando para o colo e conspurcando a manta escocesa que lhe aquecia as pernas. Ele levantou-se rosnando explicadinho o nome da relapsa, soergueu as narinas (o verbo soerguer aplica-se, sim, dada a dimensão da protuberância), e ordenou
- Vai-te embora!!!,
tendo a minha avó acudido imediatamente ao concílio formado na cozinha à volta das lágrimas da rapariga, que já se estava a ver com a trouxa a embarcar no Vouguinha, e esclarecer
- Não é para ires embora desta maldita casa. Só não podes entrar naquela maldita sala. Pelo menos durante uma maldita semana.
Mas a coisa piorou. Nessa mesma noite, pedindo papel e lápis, decidiu o meu avô que à hora da telenovela a seguinte lista de indivíduos estava impedida de entrar na sala, a saber
      1. Moscas
      2. Empregadas Domésticas;
      3. Crianças com menos de treze anos;
        e qual não foi o meu espanto quando deixaram de se ver moscas na sala, não sei se por mor de um poderoso insecticida, cujo método de aplicação fora urdido às escondidas pelas empregadas e pela avó, se por puro medo, e só as crianças menores de treze anos violaram a regra, excitando as sobrancelhas do patriarca e ensinando-o a ser mais avô.

        Pedro Guilherme-Moreira 2009

1 comentário:

Cristina Torrão disse...

Lol :D

"deixaram de se ver moscas na sala" - eu aposto no "puro medo" :)