2011-02-18

Livros marcados e a partitura


O volume da Recherche que anda comigo molhou-se com o temporal e foi desaguado entre os lençóis pelo corpo, por ser lento e natural, mas ficou marcado e eu não sei se gosto, por mais que me emocionem os livros marcados, com manchas de café e cores que evoluíram da original, e me arrepiem os livros intocados e lisos.

Resolvi voltar ao zero, quando, por voragem quilométrica, estava a meio desta empreitada, mas algo me perturbava nela: não, Proust não tem de ser só o que eu lhe tenho chamado: um aparelho de culturismo intelectual. Então voltei à página um, e em boa hora o fiz, porque estou a ler pela camada mais funda. Costumo ler na intermédia, porque o prazer da leitura também deve ter alguma leveza, mas nesta dos abismos tudo faz muito mais sentido. E então o prazer e o respeito pelo Marcel passou a ser total. Não gosto disso, pelo que me vou devotar a uma empreitada impossível da qual não quero, para já, dizer nada.

Mas agora olho todos os dias para a Recherche como uma partitura.

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