2011-02-18

Cynicbook

Este não é um artigo sobre a maravilhosa dimensão cultural e mercantilista das redes sociais.
Este é um artigo sobre a ilusão da bondade - portanto, sobre os indivíduos.
Criticar estando fora é, quase sempre, um exercício de cinismo. Vêmo-lo amiúde.
Criticar estando dentro pode ser um exercício de egocentrismo ou narcisismo.
Mas eu quero olhar brevemente para o instrumento que uso desde que decidi que não basta ser escritor, tem de se parecer. O facebook serve-me para exercitar o poder de síntese e divulgar alguma da minha obra. Serve para assentar um padrão estético quanto à minha imagem pública. Mas o que nunca consegui fazer no facebook é ser diferente de mim quando intervenho. Também não consigo usá-lo como o lugar onde vou para não pensar, bem pelo contrário. A profundidade e os debates com qualidade são tão raros no facebook como na vida corrente, porque, basicamente, as intervenções dos utilizadores são do género "olha, estou aqui" (não me exlcuo) ou "olha como eu tenho bom gosto" ou "olha como eu sou inteligente e desprezo tudo em volta" ou "olha como eu sou bonito" e orientadas pelo conceito de tribo. Há muitas, e não as vou elencar.
Não sei se toda a gente sabe que a forma de aceder ao verdadeiro conhecimento já está há muito identificada com a assunção da própria ignorância (que deu nome a este blogue), com a consciência humilde das próprias limitações. Estar num "lugar" com uma postura insindicável é, no mínimo, perverso.
A maioria das pessoas partilha coisas que nem conhece, e quando entra num debate é para aplaudir ou vaiar.
A maioria, quando é contrariado, cala-se e começa a enviar mensagens privadas a cascar no dissidente, ou a avisar como conhece quem não conhece, sem se aperceber da maldade da liminaridade.
Raras vezes vi o exercício de, quando se tem as convicções em causa, saudar o contraponto pelo que nos faz aprender. E os que me fazem mais pena são os que, estando claramente fora do seu meio, da sua tribo, tentam a aceitação a todo o custo, e são, normalmente, objecto de um incomensurável desprezo.
É cansativo que pessoas aparentemente inteligentes nunca tenham meio-termo, e que confundam a (boa) capacidade de acolher a diversidade de ideias com relativismo moral. Ou gostam sempre de alguma coisa ou de alguém, ou não gostam de nada.
A maioria das figuras públicas, mesmo que pouco públicas, age como se fosse muito importante e muito pública. Larga o poio e nunca vem limpar o que fez: deixa a turba a esgadanhar-se por um momento de atenção e permanece em silêncio, usa e não se deixa usar.
E se, entre a maralha, os há obsessivos e chatos, são muito menos do que as almas atormentadas armadas em importantes.
Gosto muito de pessoas, e quase toda a gente que se comporta assim é...boa gente. Apenas se limitou a cair num cesto sem exercitar o seu sentido crítico. É no one-on-one, ou seja, nas conversas particulares ou diferidas (por email, por exemplo) que a maioria das pessoas efectivamente se revela, e, claro, com uma personalidade totalmente dissonante da que vendem em público. E o que é curioso é que são melhores em privado do que o que querem parecer em público.
Mas o que leva uma rede social gigantesca a assumir-se como Cynicbook é o medo da exposição e da autenticidade. E expor-se não é mostrar a imagem (sua e dos filhos e dos maridos e da privacidade aparente - e até confundem os que só têm fotografias de si próprios - é o meu caso - com egos inchados. Na verdade, eu prefiro quem, em termos de imagem, só se mostra a si próprio). Expor-se é expor o que realmente se pensa. A turba prefere manter-se à sombra de um jogo frívolo. Não se expor é perfeitamente legítmo. Expor apenas os outros, saudando e apoucando sistematicamente o que mais convém, nem tanto - qual a virtude do massacre aos espíritos frágeis ou da massagem aos pertinentes? Aprecio, nos tempos que correm, e cada vez mais, quem expõe as suas ideias e sabe debater, acolhendo as ideias dos outros e fazendo o esforço de uma síntese. Paz é isto.
A turba critica a guerra, mas só sabe fazer a paz aparente.
E o humor, o humor franco, que é a saída mais leve e digna para o supérfluo, quase não se vê.
O cinismo esse, reina sobre os murais.
E ser-se melhor pessoa virtual, já marchava, não?

PS: há excepções, claro, mas é quase matemático: 1 a 2% dos "amigos" serão verdadeiros amigos, pessoas realmente se importam consigo. E já é muito. E um dos grandes ganhos das redes sociais.

6 comentários:

Carla B Ribeiro disse...

Há anos que me pergunto onde andam as pessoas com que me cruzo na rua pelo mundo virtual. Onde andam os que buzinam assim que abre o sinal, os que entram no elevador e não dizem bom dia, os que não seguram a porta a quem vem atrás, os que atravessam a praia a correr pouco ralados com a areia que voa para cima de todos os que estão placidamente deitados em suas toalhas? Procuro e não os acho. No mundo virtual até parece que essas pessoas não existem. Somos todos tão bonzinhos. Tão decentes. Tão humanos.

Bom texto PedroG

Maninha disse...

Ok, Pedro, é o teu ponto de vista e sabes defendê-lo bem, mas pensa que há pessoas diferentes de ti, não necessariamente cínicas, que apenas não gostam de demasiada exposição.Pode ser?

Carla B Ribeiro disse...

Maninha, acho que o problema não está tanto na "não-exposição" mas antes na "falsa-exposição" (conheço quem nunca tenha dado um copo de água a uma criança com fome no meio da rua e passe a vida em campanhas solidárias ou quem nunca tenha dado um pingo de sangue e publique constantemente pedidos para o efeito) ou na "exposição inconsequente" (de quem acha que está a escrever para si próprio, de quem quer-se ler, que quer debitar uma opinião mas que não reflecte sobre a mesma e depois não admita que haja quem o faça).

Ou isso ou estou como 98% das pessoas da rede e não li bem - embora, jure, tenha lido até ao fim :D

PS: Continuo a preferir comentar em blogs (embora as letrinhas de verificação sejam uma canseira)

Raquel Fernandes disse...

Gostei e fico feliz por achar que me não encaixo nessa maioria que implacavelmente não cede nas suas opiniões ou cede em demasia. É um bom texto e democraticamente permita-me discordar com a questão das imagens: mostrar os meus é mostrar-me a mim própria.

Bom fim de semana, beijinho.

R.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Carla, obrigado por detalhares a questão. Não poderia ser tão exaustivo no texto. Raquel, repara que não critico quem mostra imagens dos seus, mas falo disso para distinguir os tipos de exposição e expresso a opinião pessoal de que prefiro quem só se mostra a si. Eu nunca me vi através dos meus, antes luto desde o dia um para que o meu filho não seja eu, mas amo-o de uma forma quase irracional:). Maninha, olha que te ponho nos 2%, apesar de tu, no facebook e na internet, nem seres bem uma pessoa, mas um conceito, o que é legítimo e está muito bem. O problema está em fingir-se uma pessoa e não o ser, entendes? Aliás, falo disso no artigo e não me excluo: em termos de imagem, faço como tu, embora mostra uma parte do real e tu não. Mas é só uma parte.

Maninha disse...

"Mas o que nunca consegui fazer no facebook é ser diferente de mim quando intervenho." Entendido :)

Agora o "conceito" vai-se retirar que isto já é muita conversa para um dia só.**