2011-02-12

As tuas vísceras, cisne

It's all about you. O cisne negro. O cisne branco. És tu. Sejas escritor, bailarino, pintor, músico. O que for. És tu.
Quando se é artista, entende-se o conceito de "visceral" quase aprioristicamente. Trata-se da pulsão para a produção artística, aquilo que está cá dentro e tem de ter uma forma de expressão, e que, se transpirar pelos instrumentos de cada um no momento certo, é executado quase em transe. Ou mesmo em transe. Na escrita são palavras, frases, há quem se levante de noite para escrever sem notar que o faz, há quem esteja a escrever e adormeça e leia de manhã coisas que não se lembra de ter escrito. Há quem pense nas palavras e nas frases e não as escreva e as guarde apenas na memória, o que também é escrever. Um músico também. Um pintor também, mas as palavras são cores e traços e conjuntos. Na dança são movimentos, abordagens, atitudes, inspirações.
Em todas as formas de arte, contudo, há dois elementos que reputo de fundamentais: 

Um é a contenção, o mais importante de todos.
Mesmo quando o artista é bom, raramente o superlativo funciona. O superlativo é, quase sempre, má arte. Os maiores, ou seja, os que conseguem produzir obras superlativas, contêm-se e contêm-nas. Depuram-nas. O escritor corta os seus textos e reduz a frase ao necessário. O músico também. Ambos têm momentos extáticos, mas são passagens, momentos que eles deixam ficar ou libertam, não permanências.
Talvez aqui esteja o único erro de Darren Aronofsky. Já devem ter percebido que o mote desta crónica é o "Cisne Negro", o filme deste realizador protagonizado por Natalie Portman.
A partir de um certo momento, Aronofsky deixa-se tentar pelas suas referências máximas, Brian de Palma e Hitchcok. E faz um filme de terror, não estejamos com rodeios. Creio que nunca cai no mau gosto, e também fiquei convencido com Natalie. Como disse na altura sobre Marion Coltillard (como Edith Piaf, o papel que deu o primeiro - justíssimo - óscar de melhor actriz a uma francesa), actuações arrebatadoras e transcendentes (que estão ao alcance de poucos) têm de ser devidamente premiadas. Por mais que Annette Bening merecesse o prémio (pel'"Os miúdos estão bem") e o reconhecimento pela sua carreira, teve azar, porque Natalie está, no meu entender, perfeita. Não tinha de o estar tecnicamente, em termos de dança, e isso eu não saberia avaliar, tampouco é preciso, mas está perfeita no cadinho artístico que é um desempenho cinematográfico. Contida, sem nunca exagerar nem cair no simplismo de caracterizar uma boa muito boa ou uma má muito má. Mesmo a belíssima Mila Kunis apoia-a bem, está bem dirigida, e nunca funciona como o contraponto total. Há pontos de contacto entre ambas, desejo, aspiração, competição. Não é o diabo a assinar contrato com um anjo.

O segundo elemento é o comprometimento (ou a necessária imperfeição).
O comprometimento pode não ser, mas é muito, resultado da sábia gestão do instinto e dos instintos. Qualquer obra deve estar comprometida com o seu autor, e o autor com ela. Não ser anódina. Ser apaixonante, como ambos os cisnes o são, no final. Pode ser cerebral, mas nunca pode ser frígida.

Ora, a título muito pessoal, o filme não é propriamente sobre o lado bom e o lado mal, mas sobre, como foi dito no começo deste texto, o "visceral" da arte. Funcionou para mim como um refeição, há muito aguardada, de compreensão artística. Devorei o naco de entendimento da arte que Aronofsky trouxe para o público. É, por isso, também sobre mim. Vibrei ao ver no ecrã a mesma dor e o mesmo sofrimento que muitas vezes giro sozinho, ao escrever. Já muitas vezes ouvi comentadores dizer que abominam os artistas que se dizem sofredores ou falam de um dor intrínseca à produção artística. Ora, um tipo bem disposto e feliz não tem de dramatizar a questão, mas a verdade é que ela existe. Não, não é a solidão do criador, que com essa pode-se bem.
E o filme, nesse aspecto, sangra feridas, expõe as vísceras, faz vibrar, incomoda, é total.
E a melhor notícia é que consegue ser isso e vender e ser popular:
Em quase 70.000 (setenta mil) votos no IMDB.COM consegue uma estonteante média de 8.5 em 10. Média! Eu, claro, se tivesse de o classificar assim, daria um 9 bem dado, mas eu não gosto de notas ou estrelas. Sei apenas que Aronofsky e Portman, entre muitos outros, fizeram pela vida (Portman já se preparava há um ano sem receber um tostão, e a verdade é que se esteve perto de não haver dinheiro para fazer o filme: gastaram "apenas" 13 milhões de dólares, o que é notável para um filme americano) e vão ter todo o reconhecimento que é merecido.
E óscar para Portman, claro.



Trailer:

2 comentários:

Raquel Fernandes disse...

Gostei de ler e concordo com muita coisa, principalmente com a primeira parte e a dor de quem sente necessidade de se exprimir astisticamente. Infelizmente com isso a minha critica ao filme não muda, mas foi muito bom ler este ponto de vista.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

obrigado, Raquel:).