2011-02-07

As bestas (parte 1)

Havia uma casa encostada a um monte, havia batatas plantadas no lugar do jardim, havia um pátio de cimento quebrado. Ficava num lugar de urbanismo imundo, que nem campo nem cidade, sítio onde o egoísmo remendado de função pura prevalecera, e onde ninguém se lembrava que para se viver também eram precisos lugares felizes.
E a coberto do cinzento das paredes maculava o ciclope a pureza dos meninos e a integridade da mulher.
Alturas havia em que a esmurrava na cozinha, havia azulejos com sangue seco e berros mudos, e com as próprias muletas dela lhe acertava nos ossos indistintos, se era gesso se havia de ser, que se foda, apanhas no focinho para não te pores com essa cara de parva quando um gajo chega a casa humilhado da verrina do patrão,
e os meninos, meu Deus os meninos que despachava depois de se fartar de a espancar, fechava-a sempre à chave e ela só os ouvia chorar, pensou durante anos que ele lhes batia como a ela, e se pressentia outra verdade não a via, eram assim muitas mães na face do horror que era supremo, não o deixavam entrar,
e por isso pensou sempre que ele lhes batia como a ela, mas era pior, muito pior, e em sabendo disso, estava ele há seis meses a trabalhar em África e a vida era tão mais suave para todos, foi o último dia em que ficou trancada a cadeado na própria casa, o último dia que aquela besta lhe punha uma mão em cima e o corpo imundo nos próprios filhos
- Diz, querido, diz à mãe, conta à mãe, que a mãe promete que o pai nunca mais te vai bater.
Estavam assim uma noite, sentados em volta de um gelado de limão comprado com mentiras na contabilidade doméstica (que ele controlava por um telefone africano todos os dias), e estavam mais ou menos felizes e tensos, era até mais medo que tensão, por se acercar o dia do regresso da besta, quando o mais velhinho lhe disse que o pai não lhe batia, mãe, faz outra coisa, mãe, e explicou à mãe que outra coisa era, e em lho contando fez desfilar profusas e grossas lágrimas sem chorar, a face impávida, corriam várias lado a lado, e a mãe, ao perceber, levou as mãos à boca, não demorou muito para amargamente reconhecer que já sabia, e tudo o que a cegara desfilou num repente, os tecidos a roçar, cada movimento, cada suspiro, cada choro, cada rugido de satisfação, e nem se sabe como não desmaiou, ao prostrar-se aos pés do anjo com todas as dores do absoluto, pedindo-lhe desculpa e gritando de horror, uma e outra vez, uma e outra vez, uma e outra vez.
O mais novinho agarrou-se ao irmão, talvez no abraço mais forte de toda a sua breve vida, fez-lhe desajeitadas festas em cima da cara, e na hora em que a mãe o questionou também, só com o olhar e sem dizer palavra, ele acenou em silêncio e ela dobrou as desculpas e o horror.

- Tira-me daqui, Madalena! Tira-me daqui que eu vou matá-lo! – e chorava e gritava e soluçava e chorava e gritava e soluçava. Percorreu com a ponta dos dedos a pele sagrada dos seus filhos, cada recanto que ela amava sem limite como qualquer mãe e qualquer pai, subtraindo as bestas egoístas e os ciclopes. (...)

(continua um destes dias)

Pedro Guilherme-Moreira 2007

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