2011-01-11

Sorrir a uma estranha (e grandes mentiras)

Em tempos falámos aqui das divas regulares, e de como devíamos render-lhes homenagem, por oposição às eternas. Mas algumas vez vos ocorreu isto? Que quem na rua nos parece deslumbrante, é certamente mais bonita e interessante do que qualquer mulher pública, qualquer uma que tenha tempo e profissão para preparar o engano? Pode ser o mais belo engano. Pode até ser uma mentira de culto, ou que apetece cultivar, como todos os clássicos, mas seremos certamente mais felizes a observar a miúda da nossa rua, a vizinha que compõe a montra da frente em poses aparentemente inocentes, a empregada do nosso café, a gótica do comboio a quem aquilo passará um dia. Evitar as ruas, os transportes públicos, se por um lado pode dar uma ilusão breve de conforto, por outro afasta-nos do mundo. Traz-nos para estes ecrãs cheios de luz e mentira. Vá, não exageremos: como é possível fazer da capacidade de decifrar o olhar dos outros uma forma de conhecimento e estimulação cerebral bem melhor do que testes parvos de QI, também não é impossível saber que quem nos fala virtualmente pode passar-nos autenticidade. Há perguntas ou silêncios que dizem tudo. E, sim, para que conservemos a memória dessa pessoa, temos de divergir da norma, nem que seja numa só frase ou ideia atípica que atiremos para a conversa. Nem sempre isso é possível fazer estalar a "persona" com que cada um se arma, e insistir, em qualquer cenário, é perigoso e pode comprometer qualquer relação, e até o bem-estar. O nosso e o dos nossos interlocutores. Devemos agir com tento e dando espaço, todo o espaço. Principalmente nunca cobrando a ausência, porque o mundo de hoje é feito disso: de ausência.
Importante é olhar e apreciar a miúda do nosso bairro, da nossa rua, bem mais do que a miúda pública que nos dá uma atenção breve.
Não que este texto possa servir de cura a um "groupie" que fez da sua missão de vida venerar uma pessoa pública - ele sente mesmo que não é possível empatizar com um ser humano real. Mas devia saber que a maioria das pessoas públicas não só não são, como rejeitam ser, aquilo que delas faz a imagem que é difundida em larga escala. Ou mesmo que não seja uma imagem: um artista, um cientista, um cineasta, um escritor. Os melhores não querem ser confundidos com a sua arte. Ao contrário do que certos paladinos da desgraça, que normalmente se consideram detentores da mais excelsa lucidez, defendem, o problema não é, nunca foi, a plataforma em que se comunica ou se lubrifica. O problema é manter um espírito crítico sobre tudo o que nos vem de todas as formas, elogiando, saudando, estimulando, mas também apoucando, se preciso for. Excluir automaticamente, sem reflexão ou até experimentação, o que quer que seja, não por ser algo de negativo em si, mas só porque a maioria o usa ou é moda, ou até porque se considera que se assiste ao vórtice descendente da civilização, é errado.
Não aprender estas novas formas de comunicar é tão errado como pensar que elas são melhores do que as antigas. Não são. Comunicar vai da capacidade de ouvir. E de se fazer ouvir.
Eu costumo dizer que não há outra forma de cumprir as amizades virtuais: é preciso querer, e depois é preciso estar presente, expor-se, ser imperfeito.
Mas muito melhor é sorrir a uma estranha. Realmente.

2 comentários:

Maninha disse...

Ontem sorriste-me e eu estava bem ramelosa ;)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Tu sabes, eu não. Eu sorri a uma estranha, tu viste um tipo identificado. Basta ter sorrido a mais do que uma para não saber quem és tu. Podes ser bonita ou feia. Simpática ou antipática. Sorrio a todas.:)