2011-01-15

Rainha Bonaire e como escapar à forca da vidinha

É muito provável que não a conheçam de outros filmes, e nem que vos dissessem que traz dois Césares para amostra (o que é isso de "Césares"?) a reacção inicial seria diferente. Quando começarem a ver esta sopeira desengraçada a descer de bicicleta as belíssimas encostas da Córsega vão perguntar:
- Mas esta é que é a actriz principal?
Preparem-se para, na próxima hora e meia, testemunharem o trabalho de um actriz que domina cada subtileza das suas expressões faciais, ao ponto de ir de serva a rainha em segundos, passando por mulher submissa e amante, sem que nunca a sua personagem resvale da própria moralidade dominante. Passa-lhe trangentes, sim, rompe com a vidinha, sim, mas nunca resvala. Sandrinne Bonnaire interpreta Héléne, uma mulher que se viu presa a uma ilha corsa pelo casamento, e que faz o que pode para ganhar a vida - é mulher-a-dias de um americano e camareira num pequeno hotel local. Ora, o seu marido trabalha em empreitadas e a sua filha é uma adolescente convencional com vergonha de ser pobre. Apesar de ser uma família equilibrada, desde cedo percebemos que Hélène tem horizontes: na cena simbólica em que ela arruma um quarto enquanto os seus ocupantes (uma surpreendente Jennifer Beals - lembram-se da protagonista de "Flashdance"? - que, com quase cinquenta anos, se mostra esplendorosa) jogam xadrez na varanda panorâmica. O filme chama-se "Xeque à Rainha" e acompanha a obsessão de Hélène por xadrez, obsessão que nasce  precisamente nesta cena. Claro que, quem ler o resumo do filme e não vir o trailer, vai pensar que é o filme é sobre xadrez. Não. É "só" um filme que  explica de forma simples aquilo de que nos tentamos convencer tantas vezes ao espelho: as nossas vidinhas não são assim tão más, mas devemos ousar para lá dos horizontes limitados que elas nos impõem. Cuidado, porém, e essa é a singularidade da mensagem: aspirar demasiado alto ou de forma demasiado intensa vai destruir aquilo em que nos fundamos. E não é no sonho que nos fundamos. O sonho é a meta.
Para lá chegar, temos de encher as armações de betão. Quantas vezes a nossa família, filhos, maridos, mulheres, nos parece desengraçada à vista de vidas aparentemente glamorosas ou de actividades supostamente superiores? Aliás, a própria tensão realidade/ virtualidade das tão faladas redes sociais se baseia nisso: se todos douram a pílula, quem vive dentro das redes ilude-se com o ouro, como se fosse essa gente brilhante a aturar-nos todos os dias, a limpar a porcaria que deixamos para trás, a ouvir os nosso berros, a ver as nossas carrancas, a cheirar o nosso hálito ou a ver-nos acordar de manhã. E, no entanto, em momentos limite, quando nos falta saúde ou clarividência, quando a pressão do mundo exterior é tanta que tudo parece estourar à nossa volta, é da vidinha, das pequenas banalidades, que sentimos falta, e se ela ou ele deixa de acordar ao nosso lado, também percebemos que não é a cara carregada de base e de baton da pivot das oito que importa, mas o toque de uma mão que nos ama sobre a nossa cara desgastada. Pois este filme, como poucos, descarna esta evidência. Como se fosse preciso, dizem vocês. Mas É preciso. Se não estamos atentos, os nossos miúdos, os nossos amigos, os nossos maridos, mulheres, amantes, também vão olhar de lado para nós quando nos virem a ler um livro ou a jogar xadrez, ou até censurar-nos porque é na labuta dura do dia-a-dia (ou seja, a desmiolada, limitada ao burocrático e ao que não faz pensar) que está a vida a sério, e não na merda de um livro. "Também, pai, agora estás sempre a obrigar-me a ler. Tu é que gostas! Não achas que estás a ser egoísta?". Ousar. Mas ousar à nossa medida. Ler um livro, jogar um jogo de xadrez pode ser todo o "glamour" de que precisamos na vida.
Uma chamada de atenção para a presença forte de Kevin Kline, como Dr Kröeger, num filme que, claro, não se pode perder. E dobrámos o ano com o mesmo de 2010: os melhores foram filmes não americanos.
E depois digam-me se a Rainha Bonnaire não tem o sorriso mais bonito do cinema.

Sem comentários: