2011-01-21

Porque sim

(...) Mas a história teve um pormenor escabroso, porque o povo deixou de gostar de Mateus por razão nenhuma:
O Presidente da Junta de Freguesia, senhor Pôncio, convocou uma reunião geral da aldeia pedindo que lhe trouxessem Mateus à sua presença, e quando ele compareceu manietado por dois concidadãos antes seus companheiros de bisca, perguntou a todos menos ao acusado
- Que hei-de eu fazer então a Mateus?
- Rua com ele!
- Mas que mal fez ele?
E várias vozes:
- Rua com ele!
E cada vez mais forte:
- Ninguém o quer cá!
E em histeria:
- É a vergonha da aldeia!
Então o senhor Pôncio considerou-se esclarecido e declarou:
A paz social é fundamental para a freguesia, e como constato que há unanimidade na opinião do povo, vejo-me forçado a dar ao senhor Mateus ordem de expulsão dos limites da freguesia.
Uma voz trémula sobressaiu da massa informe:
- Mas eu não concordo.
Era Camila, mulher de Mateus, que teve como resposta o habitual burburinho e uma razoável quantidade de gargalhadas infantis, o que poupou ao político o trabalho de uma resposta fundamentada.
- Vai-te embora, bruxa!
- Rua com os dois!
E mais risos infantis provocados.
Mateus e Camila recolheram a casa e não mais de lá saíram, desrespeitando a decisão ilegítima do senhor Pôncio. Os primeiros vidros partidos foram substituídos, mas os segundos ficaram assim mesmo. Entaiparam janelas e portas, duplicaram ferrolhos, e embora nos primeiros dias tivessem ficado sobressaltados com tentativas de arrombamento, depressa o triste povo desistiu, mudando o discurso para não reconhecer a derrota:
- Isso, fiquem, que se um de vós sai é morto!
A vergonha de Mateus foi destilada em raiva e indignação, combustível de resiliência. (...)

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