2011-01-21

A poesia do chouriço

 (...) Talvez nunca te tenha contado, mas quis começar por Montesinho porque reconheci o nome do pastor a quem, segundo relatos transmitidos ao secretariado, terá acontecido a maior das desgraças. Eu sei que a tua memória não é daquelas em que se sedimentam nomes, lugares e factos em pequenas camadas sobrepostas que se vão ligando com o tempo, mas deves lembrar-te do Senhor Mateus e da Dona Camila, ele muito calado e ausente, ela sempre perscrutante e observadora, seguindo todos os passos de cada visitante.
Margarida lembrava-se vagamente de um pastor que se mostrou no meio da neve numa reportagem de jornal e de uma mulher que se insinuava pelos espaços que as pessoas queriam ocupar, tão intrusiva quanto generosa e prestável.
Deram-nos lenha e enchidos que assamos num fogão antigo de ferro negro, comemos tanto e nada nos fez mal, e todos nos convencemos de que enchidos caseiros não só não são nocivos como se tornam terapêuticos (aquecem o estômago e a alma). (...)

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