2011-01-21

A parede branca

Um pedaço de parede branca que via de bicos de pés de uma pequena ponte ao fundo da Avenida da República, em Gaia, no tempo em que os comboios passavam por esse bocado antes de chegarem a General Torres ou depois de lá saírem, esse pedaço de parede branca e a entrada do túnel bordejado de paralelepípedos de granito eram o património dos meus quatro ou cinco anos. Do curto quintal da casa da avó que ficava na Rua Luís de Camões podia pressentir o fosso da linha, a casa da avó era estreita e alta, urbana e antiga, entalada entre outras casas estreitas e altas da mesma rua que hoje já não existem, a casa da avó por lá ficou durante muitos anos mas já sem a avó, a verdade é que, se me recordo bem da entrada quase apocalíptica, sombria e muito alta, a sala de jantar intocada, a cozinha com essa marquise a dar para um quintal secreto que tinha por trás o comboio e à volta outros quintais de outras casas, mas que ninguém conhecia, uma escadas muito altas que subiam sempre a direito sempre a subir, se tivesse lido o Processo de Kafka já nessa altura teria dito que as escadas do tribunal eram essas escadas da avó, embora as escadas dessa casa de Gaia fossem mais largas, muito mais largas do que as de Kafka, mas eu só tinha quatro ou cinco anos e de vez em quando, não sabia porquê, passava umas temporadas em casa da avó com os meus pais, na altura terei pensado Somos pobres e não temos dinheiro para aguentar a nossa casa, mas nunca soube se era exactamente isso. Isto para explicar que um dia fui para Lisboa de comboio com a avó e era a primeira vez que andava de comboio, e de toda a viagem só me lembro de uma coisa e tenho muitas saudades desse momento e dessa imagem e dessa coisa, quando as outras coisas apareciam e desapareciam depressa demais houve essa que nunca me esqueceu e é a mesma que dava tudo para ver hoje, a avó abanou-me pouco depois de termos saído de Campanhã e disse Olha, vamos passar agora à beira da casa da vovó, e eu procurei, sabia que a ia ver, a parede branca, a mesma parede branca que via lá de cima da ponte, a parede branca que hoje daria tudo para rever e que não era igual a mais nenhuma, aparecia distinta de todas as coisas e de todas as sombras e de todas as luzes lá em baixo no fosso da linha do comboio e perto do negrume do túnel.

3 comentários:

Cristina Torrão disse...

Caro Pedro, este texto tocou-me particularmente, escrito de um fôlego, revelando tantas emoções. Deve escrever mais vezes assim.

Mas há uma outra razão para me ter agarrado do princípio ao fim. Para usar um cliché: o mundo é pequeno. Se a sua avó morava da Rua Luís de Camões, em Gaia, o Pedro certamente conhece a Rua 1º de Maio. Primeiro, moraram lá os meus avós, durante quase 10 anos. Depois, morámos lá nós: pais, filha e filho (eu sou a filha), durante 17 anos!

Hoje estou na Alemanha, mas é só para disfarçar...

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Mas eu escrevo muitas vezes assim, Cristina.:) Sim, esta parede branca era precisamente a que era vista da ponte, que a Cristina deve conhecer bem. Claro que conheço a Rua 1º de Maio. E os Caius, conhecia os Caius, acima do Karpa, um casarão bordô? E a avenida quando era alameda?:)

Cristina Torrão disse...

Lembro-me do casarão bordô acima do Karpa, mas confesso que o nome Caius não me é familiar. Lembro-me bem dos casarões, que se foram degradando, demolidos para dar lugar a prédios. Quando saí de Gaia, em 1992, já não havia quase nenhum.

E, sim, a avenida como alameda, com as árvores no meio. Quando os meus avós lá moravam, até havia bancos entre as árvores e estava-se lá bem, os carros eram poucos. De engarrafamentos, nem sinal :)