2011-01-02

Os mágicos não existem

OS MÁGICOS NÃO EXISTEM
(Publicado integralmente no blogue Ignorância em 2 de Janeiro de 2011:
http://ignorancia.blogspot.com/2011/01/os-magicos-nao-existem.html)
Não vale a pena concordar ou discordar da frase em título. É um símbolo, não uma opinião. Sendo a essência do filme, não podia ser outra a escolhida, mas não vai ser aqui explicada e só pode ser cabalmente compreendida depois de se ter visto esta obra-prima de Sylvain Chomet, que já não nos trazia tanto desde 2003 ("Les triplettes de Belleville"). Foi o milagre de um argumento de Jacques Tati escondido há cinquenta anos na gaveta, e que a sua filha Sophie sempre considerou inadaptável a partir do falecimento do seu pai, porque só ele, idiossincrático como era, poderia interpretar o protagonista. O caso mudou de figura quando se colocaram as infinitas hipóteses da animação. Lá estou eu a falar outra vez de animação - agora tradicional - e vocês a pensar que este tipo é um "geek" do sector, quando o que sou, verdadeiramente, é um ignorante e não, não é jogo de palavras com o título do blogue. Perante as queixas familiares (arrastei-os comigo) de que "mas se não gostamos assim tanto de animação, o que estamos aqui a fazer?", eu limitei-me a responder que este tempos não permitem que se separem formas de expressão artística de forma estanque. Este filme são palavras não ditas ou segredadas aos nossos ouvidos durante hora e meia, e sentem-se com um sorriso e em plenitude como se fosse a melhor literatura e a melhor pintura e a melhor música. É uma experiência visual de uma nostalgia tremenda que nem sequer é nossa, da geração que nasceu no último terço do século XX - e que por isso será ainda mais intensa para a dos nossos pais e avós ainda vivos -, mas de uma humanidade e candura de tal forma transversais que não pode deixar ninguém indiferente. Tenho uma grande dificuldade, sinceramente, em dizer mais sobre este filme, e por isso prefiro deixar o alerta: Janeiro de 2011 será a despedida das salas de cinema, onde ele deve ser visto (e o seu esplendor morre em qualquer ecrã de televisão, por maior ou melhor que seja). Não chega para lágrimas, mas elas estão escondidas no arco do nosso peito do primeiro ao último minuto. O traço é de uma beleza arrebatadora, a ressurreição de Jacques Tati na figura do protagonista, o mágico Tatischeff (o apelido original de Tati, que este encurtou para fins artísticos) , e da sua filha Sofie é pungente, a caracterização do fim de uma época - a dos artistas nómadas - avassaladora, a cara de Paris, Inglaterra e Escócia, dos comboios e das aldeias e das ruas de Edimburgo mais autênticas do que as de um fime com fotorealismo em três, quatro ou 5D ou o raio que o parta. "O Mágico"  (L'Illusioniste) é um dos filmes da década e nunca abandonará a memória de quem tiver o privilégio de o ver no cinema.

4 comentários:

Maria Letra disse...

O seu texto, àcerca do filme, motivou-me e, portanto, irei vê-lo sim, a despeito do tema não ser, propriamente, "my cup of tea" .
Um Feliz Ano 2011.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

é o suficiente para ter valido a pena escrever, Maria. Tem é de ir depressa, e depois vir cá dizer alguma coisa, mesmo que não goste (o que acho difícil:)

gambozino disse...

está cheio de tristezas penduradas que quase nos entram pela cabeça adentro, mas que ficam a pairar sobre nós durante todo o filme... bonito filme, sim!

abraço

Beatrix Kiddo disse...

lembro-me de ter lido este post e uns dias depois fui ver o filme :)

lembro-me também de adorar este reparo
"Foi o milagre de um argumento de Jacques Tati escondido há cinquenta anos na gaveta, e que a sua filha Sofie sempre considerou inadaptável a partir do falecimento do seu pai, porque só ele, idiossincrático como era, poderia interpretar o protagonista. O caso mudou de figura quando se colocaram as infinitas hipóteses da animação."