2011-01-21

Os carrinhos matchbox, o dentista e o medo da mãe

Era a montra de vidro ampla, muito ampla, larga, muito larga, alta, muito alta, um pedaço de montra só com carrinhos matchbox e majorette . Nunca gostei muito dos majorette, dizia a todos que os matchbox eram melhores e isso trouxe-me alguns dissabores porque a minha mãe, sabendo disso, me negava sempre os majorette, mesmo quando não havia de outros. Eu teria sete ou oito anos nessa altura, e a montra ficava do lado esquerdo da Rua Formosa, quem vem dos Aliados, mesmo em frente ao dentista que me aterrava, um dentista muito antigo com instrumentos pesados e assustadores e uma cadeira sem suspensão hidráulica que eu sempre vi como lugar de execução. Lembro-me de que costumávamos esperar muito tempo e eu, que era um rapazito bem comportado e me entretinha facilmente, ficava maçado de folhear as revistas todas, as mesmas revistas todas as vezes anos a fio. A meio da tarde, porque eram verdadeiras tardes de espera, a pequena janela a deitar para a rua começava a mover as cortinas transparentes e a chamar-me para colar a testa aos vidros, dava-me essa confiança, e eu ia, tinha só tamanho para ver lá em baixo a camada junto ao passeio em bicos de pés, e era nessa camada que eu via ao longe, lá de cima, a montra dos carrinhos. Durante anos só podia vê-la a correr, arrastado pela mão da minha mãe quando íamos embora, e ela tinha de ir embora porque tinha medo de tudo, nunca fazíamos desvios, podíamos perder-nos no Porto, perder o autocarro de volta, perder o conforto da rotina, e era só por causa do medo que a minha mãe me arrastava e nem a montra dos carros, nem a fruta do Bolhão, nem os cadernos da Papélia, nem o café do Majestic, nem as roupas da por-fi-rios, nada, eu não via nada. Então um ano, entre os dez e os onze, já eu era mais alto do que a minha mãe, ela disse que sim ao meu centésimo quinquagésimo pedido para descer dois andares e ficar colado de joelhos ao vidro da montra dos carrinhos, e a partir daí comecei a fazer sempre assim, e como tinha tempo também me encostava de costas e via as pessoas nos passeios e tomar café na Sanzala do outro lado do largo. A minha mãe começou a ter menos medo e um dia cumpri mesmo um dos meus sonhos e fui tomar uma cevada com ela à Sanzala. Mas com esse hábito também ganhei o direito de me serem oferecido regularmente alguns carrinhos matchbox, porque o tempo e o vagar para os analisar era muito, pelo menos enquanto a minha mãe suportava ficar colada à janela lá em cima e antes de começar a bater sôfrega e repetidamente com os nós dos dedos no vidro porque a pessoa que estava antes de nós entrara. Um dia, já com mais de doze anos, deitei tudo a perder quando me atrasei a subir. Foi mais um ano maçador a folhear revistas, talvez o último ano deste dentista, que faleceria pouco depois. O que mudou aos dez anos foi essa hora em que eu ficava de joelhos a admirar todos os modelos com detalhe, só podia ter um a cada duas visitas e não me queria enganar na escolha e na defesa da minha causa, que a minha mãe ouvia sempre com muita atenção, fazendo perguntas mordazes: mas não levaste uma carrinha há dois meses? E o jipe vermelho que compraste perto do Natal? Outro Golf?. E um dia, já eu namorava, passei na montra dos carrinhos da Rua Formosa e cumpri outro sonho: entrei na loja e gastei o meu próprio dinheiro sem ter de dar satisfações (embora a namorada também as pedisse, e eu tivesse de lhe mentir piedosamente). Ainda fiquei alguns minutos suspenso entre múltiplos Se faz favor? e Posso ajudá-lo?, e lá estava a fileira de carros junto à montra, magníficos, estava a ver a montra de dentro para fora e a comprar uma dúzia de carros de uma só vez que, embrulhados num pacote, passaram por ser material eléctrico para uns arranjos em casa, eu que nunca pegava numa chave de parafusos que fosse. Carrinho após carrinho, sempre vi os puxadores, os retrovisores, as jantes, os pneus e, acima de tudo, as portas, se fechavam ou não, o capot, se fechava ou não, nesses dias esses pormenores eram decisivos, e era preciso pensar muito bem se as miniaturas eram aptas a cumprir a brincadeira como estava planeada. E foi por esse pedaço de montra que, já casado, passei e já não havia. Era uma ourivesaria. Fim de linha e tudo para o fundo da memória. Só me resta chorar. Chorar a sorrir, mas chorar. Perdi a esperança de um dia viajar no tempo e observar o pequeno eu ajoelhado no passeio com a cabeça encostada ao vidro da montra ampla, larga, alta dos carrinhos matchbox e majorette.

1 comentário:

Cristina Torrão disse...

Lindo!

Também brinquei muito com os carrinhos matchbox do meu irmão :)

A por-fi-rios tinha sempre uma montra muito original, sim...

Obrigada pelas lembranças :)