2011-01-24

Oração final

Ligamos muito a poucas coisas e pouco a muitas coisas.

Passamos ao lado, andamos por fora, perdemos o centro.
Fingimos que nos preocupamos com o próximo. Não nos importamos, e até pensamos que sim, tal como quando passamos nos passamos a interessar por um modelo específico de carro e o vemos na rua. Comentamos que antes não havia tantos daqueles. E acreditamos nisso. Nunca admitimos que foi o nosso centro de gravidade que mudou e que só giramos em torno de nós próprios. Temos pouco tempo para tudo o que consideramos essencial mas não nos apetece fazer. E passamos aos outros a ideia de irrelevância. Temos pouco tempo para ser pessoas. Pouco tempo para ler, para fazer desporto, certamente muito tempo para marinar nas obrigações, cozer em lume brando nos princípios, deixar escalar o fungo do bolor nos fundamentos da existência, desprezar tudo e todos menos nós próprios.
Temos um discurso plano mesmo no politicamente incorrecto e tendemos a excluir-nos dos desacertos.
Não temos memória. A memória está nos telemóveis e nos cartões. Cabe debaixo de uma unha. Para quê o esforço?
Havemos de ser nós a deixar os cérebros mirrar por falta de músculo.
Um dia havemos de ser nós a engravidar.
E depois?
Sequer vai haver tempo para que demos luta a outra espécie que nos queira ultrapassar nos comandos. Provavelmente nenhuma vai querer, e para sobreviver teremos de ser primordiais. Primordiais em vez de primários.

Amém.

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