2011-01-23

O pescador, a diferença e a Armação

O dossiê do pescador de Armação de Pêra dizia ser um claro caso de crucificação sem contraditório.
Do sexto andar do Edifício Vista Mar Um nenhuma comunidade poderia parecer perversa. De lá se apreendia de forma encantatória a vida dos pescadores, pequenas miniaturas com pequenos gestos e pequenas coisas, de lá se trazia a vigília depois de um sono perfeito com todo o mar azul. Está-se bem no mais antigo atentado urbanístico da praia de Armação. Atravessa-se uma rua e é a areia. Se for com o olhar não é preciso, tal como dizíamos supra, o mar está ali mesmo. À noite não é mar, é marulhar, as ondas sucedendo-se na praia, algo suave entre espuma e sal, o batuque do bar lá do fundo, e são duas, três, quatro da madrugada e nós na varanda a fumar mesmo que não fumemos. Ver amanhecer o tractor rebocando os barcos do mar e entardecer rebocando-os para lá, ver os dias com os pescadores vagarosamente a entretecer redes, ver noites com as luzes da pesca como lanternas de vida, essa vida nas casotas de madeira onde os pescadores têm o seu verdadeiro porto, almoçar as tiras brancas de frescura de uma sardinha algarvia, voltar da praia virando as costas ao calor, regressar no dia seguinte pelo fresco da manhã quando a lota já está vazia, tudo lá de cima e à distância visto como se fosse de brincar, é não ter capacidade de entender as veias internas de uma comunidade. Estas, em particular, latejaram violentamente quando pressentiram que um dos seus paradigmas de masculinidade tinha sido afectado pela “epidemia” dos mutantes. Se os pescadores aguentaram a descaracterização da sua aldeia piscatória às mãos da riqueza balnear que ergueu palácios e palacetes na sua linha de mar (mas que trouxe alguma beleza e harmonia urbanística), se os pescadores consentiram a destruição viva de Armação às mãos da especulação imobiliária, que dizimou esses palácios e palacetes numa invasão descontrolada de arranha-céus insaciáveis, se apesar de tudo ainda conseguiram aguentar esta Armação com roupagem de mar e cheiro a autenticidade nos meses absurdos de Verão e a outra, a que ninguém procura ou deseja, no abandono do Inverno, quão algoz é o povo quando não só não suporta a diferença nos fundamentos de um só homem, como o quer excluir de um mundo que, sendo seu, está constantemente acossado por estranhos?

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