2011-01-15

Nunca tive quinze anos

Sempre disse que os teus olhos me serviriam de guia no lugar mais alto da velhice,
mas afinal gosto de te ouvir noite alta no escuro do nosso quarto,
de como és frágil quando respiras e à luz da televisão
gosto de te ver dormir e de seguir com os dedos o trilho das tuas rugas
e de as beijar como se fosse o deus
desses caminhos.
Olho para os miúdos na praia sem o tempo no corpo
como me olhavam os velhos das varandas sobre o mar
a ver-nos correr com a vida por gastar,
tu e eu desconhecidos, rasos
às toalhas, como todas as paixões
de Verão,
e penso em todas as miúdas que amei por
cinco minutos
e em todos os rapazes que elas amaram
por pouco mais,
e penso
como ao espelho queria ser sempre mais velho,
e penso
como já não me reconheço
e penso que,
apesar da felicidade de te ter mais um Outono,
nunca,


nunca tive quinze anos

fonte da foto

4 comentários:

Beatrix Kiddo disse...

lindíssimo post

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, BK:). Muito me honra, vindo de alguém tão exigente.

Alexandra A. disse...

Belíssimo, realmente.

carla disse...

Muito bonito! Obrigada