2011-01-28

Noquinhas

"(...) - São dois miuditos à procura da estreia. Deixem-nos subir. - disse ele às putas. Uma rara felicidade acendeu nas caras de algumas delas, e a Noquinhas acabou por consentir.
- Não gosto de visitas sem aviso prévio. - mas deixou.
Vicente e Raspa começaram a subida da ínvia escadaria, comentando aquele que
- Estes lanços enviesados lembram-me sempre o gajo do Processo, do Kafka, a subir as escadas do tribunal.,
um comentário perfeitamente despropositado perante um Raspa que estava mais para lá do que para cá, imaginando o que diríamos nós se o víssemos ali, agora, com o rabinho entre as pernas e uma irreprimível vontade de fugir para casa, queria tão intensamente o colinho da mãe que as pernas tremiam entre vontade, medo e determinação, não, nada o demoveria, nada, a alternativa era assustadora, continuar virgem com dores lancinantes no pulso e preocupado por poder dar em paneleiro, coisa muito mal aceite à época, mesmo entre os paneleiros.
Quando chegaram ao topo daquela montanha e afastaram a cortina de veludo verde encardido, o cenário que se abriu não estava assim tão afastado do que tinham sonhado, com ligeiras variantes na (falta de) beleza e juventude das raparigas, e numa ou noutra tábua fora do lugar. Nunca lhes tinha ocorrido que um soalho bem conservado poderia ser fundamental na sua vida sexual. Todas estavam a mascar pastilha elástica, três ofereciam sorrisos de compreensão e irreprimível expectativa, e as duas mais aceitáveis estavam encostadas à parede com ar de desdém. Um cenário de putas era sempre assim nos anos oitenta. (...)"
Pedro Guilherme-Moreira

1 comentário:

Cristina Torrão disse...

Uma boa cena, com frases/pensamentos interessantes, como "preocupado por poder dar em paneleiro" (que revela a ingenuidade do moço), ou "Nunca lhes tinha ocorrido que um soalho bem conservado poderia ser fundamental na sua vida sexual."

Transmite o ambiente e o estado de alma dos dois jovens, na minha opinião, um bom pedaço de prosa.