2011-01-22

A merda da filosofia

Este tem nome.
Damião Soveral, Conde de Mazouco, doutorado em Filosofia Moderna e Contemporânea, actual proprietário da Casa D'Avó em Torre de Moncorvo, onde Adão pediu para pernoitar porque parecia haver sempre uma costura de seda a unir a sua memória a todos os sítios pelos quais passava. Em Torre de Moncorvo estivera tão pequenino que eram de lá as primeiras recordações que tinha da infância, teria quatro anos, não mais. Por causa dessa idade, todas as imagens lhe surgiam num carrossel de fade ins e fade outs, o cavalinho rupestre, as escarpas de um miradouro sobre as arribas e os grifos a planar, o abandono da estação de Barca D'Alva, o divino mau vinho e a vista dos quartos da Pensão Campos Monteiro com o anoitecer e o amanhecer e o sol de Domingo sobre a imponente torre quadrangular da igreja matriz, o azeite de Felgar, a foz do Sabor e a Casa D'Avó.
Este tem nome.
Damião Soveral estava inconsolável e nem a velha tangerineira vigilante lhe animava a existência.
- A merda da filosofia deu-me compreensão em demasia. Compreender também é ficar encurralado por conceitos. Mas deixa sempre muitos de fora: o selvagem, o anarca, o apaixonado. Depois tenho esta mania de não conseguir libertar-me do meu domínio. Sou investigador do conhecimento humano, e quando toca a descontrair com a leitura de romances, reparo que, por azelhice ou falta de horizonte, todos os que comprei recentemente são meta-literatura filosófica, e mesmo que queira fugir para os clássicos fico agoniado pela contenção das emoções. - e agora berrando - Estou farto disto, caralho! Farto!
Adão passou de encantado a enterrado entre o oitocentismo do ambiente e a licenciosidade do dono. Aquela atitude era surpreendente, e não conseguiu evitar empurrar-se a si próprio para o fundo do sofá com os olhos arregalados. Quando chegara, tinha recomposto na memória o conceito com que ficara da Casa D'Avó, que era a leveza da história, o tempero dos anos, e a doçura de Maria Ofélia, digna proprietária que estava quase nos dos cem anos quando a eternidade lhe acolheu a alma (soube logo que chegou). Quase todos os elementos decorativos principais eram oitocentistas, e no entanto parecia ter ficado pelas paredes a luz, e não as sombras, de todos os anteriores moradores. No piso inferior as portas eram envidraçadas, o que permitia um misto de recato e fulgor, porque os raios solares não se detinham até ter atravessado toda a casa. Tudo tinha um charme gasoso e pensávamos ser mentira quando nos diziam que cada pormenor por lá permanecia há duzentos anos ou mais. O papel de parede distinto e no entanto revolucionário para a época, vários tons de amarelos e bejes em rectângulos, ora com figuras geométricas ora com plantas, os tapetes das Índias, os quadros malditos isolados numa parede, o magnífico Cristo sangrando rubis, a pasta de finalista de Direito com flores amarelas sobre cetim vermelho e uma cruz de madeira com quinhentos anos e Jesus gravado em prata. O jardim modesto mas pleno de contos e conversas e árvores, com a enorme tangerineira a espreitar os quartos dos hóspedes no primeiro andar, os azulejos exteriores amarelos e verdes em baixo relevo, e finalmente Damião Soveral, a sala de jantar e o pequeno almoço.
O pequeno almoço foi servido com abundância, quase destemperança, o que provocou em Margarida e Adão um agradecimento imediato a Deus ou aos Deuses, hábito que aliás não tinham, numa magnífica sala de estar com portas de vidro dos quatro lados, de onde apareciam as serviçais.
Foi aí, já servido o café, que Damião Soveral, Conde de Mazouco, chorou copiosamente sem conseguir parar, e não foi Soren Kierkegaard, nem Martin Heideger, nem Woody Allen que o confortaram, mas Margarida com o seu lenço de mão, o embaraço a desajudar e Adão apenas no apoio moral. Nessa mesma manhã obrigaram o conde a sair à rua e a misturar-se com o seu povo (o que ainda não tinha feito) sem livros debaixo do braço. Mas Damião Soveral, aceitando embora o conselho, que pretendia cumprir, telefonou ao seu irmão e pediu  que lhe fosse enviada toda a colecção de Emílio Salgari.
Sendo quase certo que a clivagem física não se consegue gerir com reflexões profundas, e isso aceite, toda a gente passou a ver Damião Soveral, Conde de Mazouco, na praça Francisco Meireles, com "A Queda de um Império" de Salgari debaixo do braço e sem necessidade de lenços para enxugar o rosto.

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