2011-01-21

Memórias da erva que pica

(...) Recordo a estrada em terra batida, única que ligava Armamar a Vila Seca. Recordo como era em si fonte de evasão a certeza de que nos afastávamos para lugares remotos onde ninguém conhecido nos encontraria. Parava-se para colher amoras e as crianças brincavam cantarolando sempre as mesmas rimas. Recordo o largo à chegada a Vila Seca, onde se deixava os carros e onde eu brincava e cobiçava a minha prima (mas ela morria de amores por outro mais velho que a impressionava com os cogumelos desencantados na encosta fronteira à aldeia, que tinha nome da vila que não é). Recordo a casa arrendada para a temporada, muito estreita e comprida, com um só corredor e quartos dos dois lados e um pé direito altíssimo que exigia portas e janelas descomunais, a dar para uma rua mirrada de casas de pedra em que não entravam carros nem se deitavam homens. Mas é a urtiga que crescia no largo junto ao tanque comunitário o que recordo com mais vivacidade, a que eu chamava "a erva que pica" e que experimentei pela primeira vez e nunca mais esqueci, não porque as dores fossem agradáveis, mas porque, quando me piquei, as minhas lágrimas convocaram a prima que, por causa disso, ficou pelo menos quinze minutos desses quinze dias abraçada a mim. (...)

1 comentário:

Cristina Torrão disse...

As urtigas sempre têm a sua utilidade :)