2011-01-21

Este paraíso para dentro do muro

(...) Na antiga estrada nacional cento e três sete há testemunhas de todos os tempos e de cada lugar. Corre junto ao Rio Sabor, e contra ele, se formos para Norte, em direcção à fronteira do Portelo, e o rio desenrola-se como uma lenda transparente com os mesmos seixos multicolores descritos em todos os tipos de literatura desde tempos imemoriais. Não há encostas profundas, pelo contrário, às vezes parece que o rio (que naquele seu início é pouco mais do que um delicado ribeiro) se confunde com a estrada, funcionando como rota de regresso do sentido único da nossa viagem.
Os lobos e as raposas e os javalis e os corços e as toupeiras-de-água e os gatos-bravos e os morcegos-de-ferradura-grande e as cegonhas-negras e os picanços-de-dorso-vermelho e os melros-das-rochas e as petinhas-ribeirinhas e as borboletas e os mexilhões-de-rio (até as trutas) e toda uma multidão de animais que não se deixa notar (vê-los é sempre uma bênção e uma raridade) senão pelos sons que musicam a rotina do Alto Sabor e daquela estrada enfeitiçada de paz - é mesmo possível ouvi-los de dentro de um carro se reduzirmos a velocidade e escancaramos os vidros (incluindo o óculo traseiro, que abre de forma independente) -, ora todos estes animais são as nossas testemunhas de todos os tempos e de cada lugar.
As árvores que em longas conversas se inclinam, ora pressurosas ora compassadas, sobre o rumorar das águas, também.
O rio afasta-se de nós numa curva larga por alturas do desvio para a aldeia de França, deixando a descoberto um superlativo vale com o fundo dos contrafortes da Serra de Montesinho, internando-se depois subtilmente no caminho da aldeia, ou, mais rigorosamente, vindo internado da sua nascente espanhola na Serra de Parada, tão perto da fronteira que muita gente pelos séculos fora perguntou de forma retórica se não haveria rei português dedicado a conquistar esse minúsculo talhão de serra para que o rio fosse só nosso.
Perante as tais testemunhas, prosseguimos mais um pouco pela cento e três sete até ao desvio para a aldeia de Montesinho, já muito perto da fronteira.
Agora é um instante. (...)

1 comentário:

Cristina Torrão disse...

Agora é um instante...

Antigamente, seis a sete horas: saída do Porto, Amarante, o Marão (pelo menos, hora e meia), Vila Real, Murça (as curvas de Murça, meu Deus), Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Chacim, Lombo (o Sabor fica bem lá perto). As curvas, os enjoos, o pai impaciente que não queria parar e lá se vomitava dentro do carro. O pai ficava danado, deitava-nos as culpas, quando a culpa era só dele...

Agora é um instante...