2011-01-21

Daquelas doces mulheres (e homens) sem filhos sobre as quais não se escreve

"(...) A minha mulher morreu-me nos braços no dia em que soube da gravidez. Estava doente há muito, é verdade, mas não consigo deixar de pensar que a emoção de o saber lhe retirou as últimas forças. Faz-me falta. Faz-me muita falta. Ninguém que tenha estado distraído de amar pode saber o que é viver uma vida para uma mulher. Em certo sentido, a ausência de filhos deu-nos essa oportunidade de não nos repartirmos entre demasiadas coisas e demasiadas pessoas. Mas eu sei que ela se sentia desagregada por não conseguir engravidar. Quando soube que tinha engravidado de forma improvável e fora de tempo, sorriu e encostou a cabeça no braço com que eu lhe formava meio regaço. Morreu. Todos me dizem que morreu feliz, que morreu aliviada por saber que me podia dar o filho que sempre desejara e sempre fingira não querer. Por poder finalmente descansar. Mas eu sinto esta culpa que me fura a alma e é difícil de suportar. O de nunca a ter conseguido convencer de que, realmente, não queria filhos. Tenho estado em miradouros e visto precipícios com a ideia de ir ao encontro dela, mas é esta ideia que me impede sempre de avançar, de que há tantas e tão doces mulheres sem filhos sobre as quais não se escreve e que realmente não querem tê-los e têm direito a ser felizes e tantos e tão doces homens sem filhos sobre os quais não se escreve e que não querem tê-los e têm direito a ser felizes. (...)"

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